quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

DICIONÁRIO TEOLÓGICO: Fundamentalismo

FUNDAMENTALISMO

Charles Hodge (1797 - 1878)



É preciso, antes de mais nada, entender que o termo fundamentalismo não se aplica apenas ao prentecostalismo e algumas correntes protestantes, mas pode ser aplicado igualmente como uma definição que resume toda e qualquer postura religiosa de desafio aberto à modernidade. Nesse sentido o fundamentalismo mais extremado é certamente o islâmico que não só rejeita qualquer alternativa de diálogo e conciliação com o mundo moderno, como ainda tenta impor um padrão de organização social parametrado inteiramente  na sua regra de fé, e nos padrões sociais já estabelecidos, e por conseguinte, inamovíveis, inclusive por meio da violência, ou ainda mesmo, exclusivamente por ela. Também no catolicismo existem elementos fundamentalistas (o cardeal francês Marcel Lefebvre na França, a organização laica espanhola Opus Dei e a brasileira Tradição Família e Propriedade e o site católico Monfort) que repudiam totalmente o Concílio do Vaticano II e toda e qualquer forma de diálogo religioso com os cristãos orientais e protestantes, e que como no fundamentalismo pentecostal, tem na crítica radical à modernidade o seu principal mote na luta em favor do restabelecimento o modelo ideal de sociedade  propugnado por tais grupos e defendido sem peias  por um dos seus mais destacos e influentes advogados,  o professor Plínio Correia de Oliveira (1908 - 1995), como sendo a cristandade medieval. fundamentalismo foi uma resposta ortodoxa à teologia liberal oriunda do Iluminismo e que tem a sua maior expressão na obra de Schleiermacher (1768 - 1834) que partindo da crítica racionalista alemã do século XVIII em relação ao Iluminismo, construiu uma obra teológica em diálogo com a filosofia da ilustração com apodos na teologia natural. Nos países de língua inglesa onde a influência do pensamento alemão nunca foi expressiva, as resistências a esse tipo de teologia variavam ora da acomodação e da rejeição do debate com vistas à busca de uma outra forma de síntese (caso da teologia inglesa) ou da reação ortodoxa com vistas à reafirmação da própria ortodoxia (caso da teologia norte-americana). Nos EUA essa reação foi ainda acentuada pela própria complexidade da organização social e política da nação estadunidense onde embora a Constituição de 1787 garantisse a liberdade religiosa com total separação entre Igreja e Estado, na prática ambas as instituições acabavam se relacionando intrinsecamente de maneira que oambém ali o elemento religioso andou periodicamente de mãos dadas com os poderes públicos, fenômeno vesse que pode ser verificado em vários momentos da história daquele país: na hostilidade a imigrantes oriundos de países católicos (sobretudo irlandeses, depois também italianos); no subsídio público de igrejas, associações ou grêmios ligados à organizações religiosas contra as quais Henry Thoreau irá protestar com a maior veemência em A Desobediência Civil (1849); leis estaduais proibindo o ensino da teoria evolucionista de Darwin; lobbys de igrejas e associações religiosas que desde o fim do século XIX se mobilizavam para obter uma legislação proibindo o consumo de bebidas alcóolicas e da qual resultou a Lei Seca que vigenciou de 1920 a 1933. Desse modo é num ambiente institucional marcado pela ambiguidade e contínuo entrelaçamento das relações entre os poderes públicos e a Igreja, não obstante a speração de direito entre ambos, que se dará o surgimento do movimento fundamentalista que ao longo da história sempre travará essa relação, seja para o enaltecimento dos poderes públicos e a exaltação da própria nação estadunidense como um paradigma democrático e cristão, seja, no sentido oposto, para criticar as posturas públicas, notadamente em tempos de governos de esquerda quando as relações entre ambos os grupos tendem a esfriar resultando disso, entre os grupos religiosos, ressentimentos e insinuações de perseguição. Desse modo, entender o fundamentalismo como um movimento político é fundamental também para que se possa entender o fundamentalismo teológico já que as vinculações entre ambos são intrínsecas.
O primeiro teológo a se preocupar com uma refutação sistemática e radical da teologia de Schleiermacher foi o presbiteriano Charles Hodge. Tendo estudado na Alemanha antes de iniciar sua longa docência em Princeton, Hodge, que não era um teológo criativo e que nunca se interessou pela filosofia, propugnou uma teologia bíblica em constante diálogo com a História da Igreja. Para Hodge a teologia era simplesmente a demonstração dos fatos das Escrituras, em sua ordem própria e em sua relação com os princípios ou verdades gerais envolvidos nos próprios fatos, os quais penetram e harmonizam com o todo (LEITH John H. A Tradição Reformada, p. 185). É curioso que Leith não classifique Hodge como fundamentalista embora admita que sua teologia possa se transformar em fundamentalismo quando repetida de forma estéril numa nova situação. (p.187). Na verdade Hodge é um teológo fundamentalista na medida em que reafirma o primado da Bíblia sobre toda e qualquer forma de conhecimento apenas com a diferença de que com sua vasta erudição, seu discurso se torne menos árido e radical. De qualquer modo, no entanto, as polêmicas que Hodge através da sua Teologia Sistemática (1873) trava primeiro contra Schleiermacher e depois contra Darwin, marcam o mote de toda a crítica fundamentalista posterior norteada contra o modernismo e também contra a teoria da evolução, o que de certo modo, o torna passível de ser reivindicado por tais grupos.




Clarence Darrow (esq), advogado de defesa e Willian Jennings Bryan, que dirigiu a 
acusação durante o "julgamento do macaco" em Dayton, Tennesse, EUA. 1925.




Historicamente, contudo, o movimento fundamentalista tem seu início no começo do século XX através de uma série de artigos chamados The Fundamentals - a testemunium to the truth (Os Fundamentos: um testemunho da verdade), publicados entre 1910 - 1915. O momento favorecia o  ressurgimento de movimentos favoráveis à reafirmação da ortodoxia bíblica já que em 1902, ocorrera a fundação da American Bible League e em 1919 a criação da World´s Christian Fundamentals Association cujas publicações foram custeadas pelos milionários do petróleo da Califórnia A C Dixon e R A Torrey. A própria edição da Bíblia de Estudo de Scofield (1909) também se insere nesse momento de ascensão dos grupos fundamentalistas, já que essa Bíblia de estudo será a referência para tais grupos. A critica principal era dirigida ao protestantismo secularizado, mas na onda chauvinista do começo do século XX, católicos, judeus e outras minorias também sofrima perseguições. Em 1919 o lobby dos grupos fundamentalistas somados à Liga Antialcóolica conseguiu a sua mais importante vitória política com a Lei Seca proibindo o consumo de bebidas alcoólicas nos EUA a partir de 1920, no que foi uma vitória capitaneada principalmente pelos grupos religiosos. Com isso o movimento fundamentalista ganhou projeção institucional tanto para capitanear a aprovação de leis de orientação religiosa tanto a nível nacional quanto local (como a proibição do ensino da teoria da evolução em estados norte-americanos, especialmente na região Sul e Centro - Oeste, tradicionalmente ligadas a tais grupos, como aquela que vigorava no Tennessee na época do Caso Bryan X Scopes, como também para acentuar seus ataques a teólogos ou ministros identificados com o evangelho social como o pastor Fosdick, da Igreja Riverside de Nova York, e o professor Reinold Nielbuhr, do Seminário Union, também naquela cidade. A vitória de Pirro que o fundamentalismo obteve no "julgamento do macaco", no entanto, foi também seu canto de cisne já que para grande parte da sociedade norte-americana ficou patenteado que o fundamentalismo representava uma forma de obscurantismo intelectual que rejeitava a ciência e a sociedade moderna, anatematizando ambos. Não por coincidência, o movimento fundamentalista começou a perder prestígio culminando esse descenso com a própria revogação da Lei Seca, em 1933 e, antes disso, a revogação das leis antievolucionistas, começando pelo Tennessee, palco do infame "julgamento do macaco." A partir daí o fundamentalismo clássico foi literalmente perdendo prestígio especialmente por conta do surgimento do movimento evangelical, patrocinado por Billy Grahan e teólogos como Francis Schaffer, John Stott e Harold Ockenga, perdendo espaço e projeção até a década de 70 quando televangelistas como Jerry Fallawell se organizaram para fundarem o movimento Moral Majority com o qual procuraram organizar cerca de 60 milhões de pessoas que, segundo o movimento, se declaravam "cristãos renascidos". A vitória de Ronald Reagan nas eleições presidenciais norte-americanas de 1980 deve ser creditada a tais grupos que apoiarão ativamente seu governo bem como os dois Bushs (George, 1989 - 1993 e George W, 2001 - 2009), bem como se congregarão numa oposição radical a governos de orientação esquerdista ou ideologicamente identificados com as tendências da sociedade moderna, característica dos governos Carter (1977 - 1981), Clinton (1993 - 2001) e mais recentemente, de Barack Obama. Em parte graças ao próprio enfraquecimento do movimento evangelical, pela sua incapacidade de algutinar todas as correntes protestantes e pela própria oscilação de seus elementos ora rejeitando, ora se aproximando, ainda que com desconfiança, de grupos cristãos mais liberais, identificados com o Conselho Mundial de Igrejas (CMI) e com o ecumenismo, e em parte pela própria reorganização dos grupos fundamentalistas por meio da grande mídia, especialmente na TV, o fundamentalismo reapareceu no final do século XX embora mantendo um discurso aparentemente equidistante daquele fundamentalismo do começo do século passado, embora não de todo já que a defesa que tais grupos fazem da adoção do criacionismo na grade curricular das escolas públicas, nos EUA e no Brasil, mostram que esses elementos ainda se encontram perigosamente próximos dos fundamentalistas envolvidos no espetáculo do "julgamento do macaco."




O cardeal fundamentalista católico Marcel Lefebvre (1905 - 1991)




O fundamentalismo pentecostal propugna uma inerrância total da Bíblia como artigo de fé e referência de vida na comunidade cristã sendo ela autoridade final e única na vida e na conduta das comunidades. Rejeitam a alta crítica da Bíblia e qualquer releitura do Evangelho a partir de influências filosóficas ou ideológicas bem como as novas tendências da sociedade moderna, posicionando-se de forma equidistante ou em forte dissídio a elas. O fundamentalismo católico concebe a Igreja Católica sediada em Roma e sob a liderança do papa como expressão integral e única da ecclesia primitiva e embora afirmem considerar a Bíblia sacra e inerrante, na verdade partem da tradição medieval como premissa e expressão da fé católica redefinindo ou reinterpretando os ensinamentos da própria Escritura. Nesse sentido todos os aspectos da vida da igreja mais especialmente a missa e  a celebração eucarística assumem importância exponencial como expressões da fé da igreja e como a forma mais perfeita da própria expressão da fé da comunidade, que torna-se assim parte de um coletivo, rejeitando, por conseguinte, tanto a natureza individual e única da fé no crente e a responsabilidade desse mesmo crente em sua salvação, como também a justificação pela fé já que tratam a missa como expressão de fé em si mesma, quando em Lutero ela é tão somente obra quando pensada no sentido de realizadora ou imputadora da fé da comunidade. O fundamentalismo islâmico concebe uma sociedade totalmente nivelada e moldada segundo as doutrinas estabelecidas no Alcorão de maneira que não só a reislamização do mundo muçulmano, mas a islamização do mundo como um todo são os objetivos propugnados nos circulos mais radicais e extremados do fundamentalismo islâmico. Como diz o teólogo luterano Martin N. Dreher: O fundamentalismo não é mero tradicionalismo ou antimodernismo. Ele surge em meio a condições culturais de uma sociedade secular ou que está começando a se secularizar (Dicionário Brasileiro de Teologia, p. 455). Nesse sentido, a resistência e a rejeição do mundo moderno pura e simplesmente (caso dos católicos fundamentalistas) ou por incapacidade radical de compreensão da crise da sociedade moderna (caso do faundamentalismo protestante e pentecostal), se transformam em formas de fuga da realidade e diante da qual a reafirmação de antigas bandeiras se tornam as únicas certezas válidas, porque são efetivamente as únicas inteligíveis a tais grupos. 

domingo, 21 de fevereiro de 2010

ELEMENTOS DE TEOLOGIA PENTECOSTAL II



O missionário sueco Gunnar Vingreen (1879 - 1933) que iniciou a obra assembleiana em Belém do Pará (1911).

O Pentecostalismo faz uma leitura do texto bíblico de forma bastante literal. A partir do conceito de inerrância, o pentecostalismo compreende a Palavra de Deus como algo uniforme que não escapa do seu significado. Evidentemente existem passagens que desafiam a uma leitura nesses moldes e por isso elementos tipológicos ou alegóricos são também condensados na interpretação do texto, porém, de um modo geral, pode-se dizer que no pentecostalismo a Bíblia representa de facto a Palavra de Deus. Nesse sentido, rejeita-se categoricamente tanto a teologia liberal (a Bíblia contém a Palavra de Deus) bem como a teologia ortodoxa ou dialética (a Bíblia torna-se a Palavra de Deus). Como diz Pearlman numa definição clássica de inerrância:

Inspiração não significa ditado, no sentido de que os escritores fossem passivos, sem que tomassem parte as suas faculdades no registro da mensagem, embora sejam algumas porções das Escrituras ditadas, como por exemplo os Dez Mandamentos e a Oração Dominical. A própria palavra inspiração exclui o sentido de ação meramente mecânica, e a ação mecânica exclui qualquer sentido de inspiração. Por exemplo, um homem de negócios não inspira sua secretária ao ditar-lhe as cartas. Deus não falou pelos homens como quem fala por um alto falante. Antes seu Divino Espírito usou as suas faculdades mentais, produzindo desta maneira uma mensagem perfeitamente divina, e que, ao mesmo tempo, conservasse os traços da personalidade do autor. Embora seja a Palavra do Senhor, é ao mesmo tempo, em certo sentido, a palavra de Moisés, ou de Paulo.
"Deus nada fez a não ser pelo homem; o homem nada fez, a não ser por Deus. é Deus quem fala no homem, é Deus quem fala pelo homem, é Deus quem fala como homem, é Deus quem fala a favor do homem."
O fato de haver cooperação divina e humana na produção duma mensagem inspirada é bastante conhecido; mas "como" se processa esta cooperação é mais difícil de explicar. Se o entrosamento de mente e corpo já é um mistério demasiado grande, mesmo para o homem mais sábio; quanto mais não é o entrosamento do Espírito de Deus e o espírito do homem! [1]

A Bíblia, portanto, é inerrante não porque foi ditada por Deus (embora Pearlman reconheça alguns elementos de ditado verbal como o decálogo), mas porque Deus inspirou seus autores humanos na condução que os levou a um processo de coligir essa mensagem. Por essa razão a Bíblia não é um livro pessoal não é uma obra de um autor e de fato a questão da autoria tem pouco significado aqui. Não é o pensamento de um escritor que está coligido no texto mas a própria Palavra de Deus que torna impessoal qualquer tentativa de auto-presunção intelectual. Cada autor tem suas faculdades intelectuais inatas e isso é considerado no processo de formulação da Palavra, porém é equívoco supor que tais autores sejam agentes autônomos do processo. Dessa forma a autoria humana se dilui em detrimento do elemento inspirador do processo de redação do texto – Deus – fazendo com que assim a Palavra revelada se torne a Palavra de Deus. A Bíblia, diz Ciro Sanches Zibordi, é a Palavra de Deus. (...) nele não há erros, nem incongruências (...) perfeita e isenta de erros [2].
Contudo, a idéia de uma inerrância bíblica mesmo condicionando o reconhecimento do texto sagrado como Palavra de Deus, coloca o pentecostalismo sempre num dilema: como estabelecer um padrão de interpretação do texto bíblico que ao mesmo tempo preserve o momento semântico (Paul Ricoeur), isto é, o momento em que o texto foi escrito, considerando sua realidade histórica e cultura, e, ao mesmo tempo, fazer uma contextualização para nossos dias evitando ao mesmo tempo o liberalismo e o fundamentalismo radical. Essa preocupação é decorrente ao próprio modo como por muito tempo o pentecostalismo leu o texto Bíblico de maneira que muitas vezes a noção do significado se condensava exclusivamente na forma e naquilo que de fato o texto sagrado colocava, eliminando, quando não evistando qualquer outra forma de compreensão. A história do movimento pentecostal revela que nem sempre essa distinção foi respeitada e consequentemente ora uma interpretação literalista da Escritura acabou prevalescendo sobre todo o resto, ora ainda interpretações ainda mais heterodoxas que as da própria teologia liberal como por exemplo, a teologia da prosperidade, foram posteriormente incoporadas. Nesse sentido fica difícil definir no contexto pentecostal o que significa de fato ortodoxia já que tanto a discussão sobre a conveniência ou não de aparelhos de TV em casa que grassou no meio pentecostal desde a década de 60 como a rejeição do ensino teológico formal, são tão heterodoxas e descontextualizadas quanto o ensino herético da Bíblia da Estudo Pentecostal onde infâmias como  Pobreza é escravidão! Ela amarra as pessoas, impedindo-as de terem as coisas que necessitam, ou ainda É hora de Deus acabar com a escravidão das dívidas e da pobreza no meio do seu povo! É chegado o momento da liberação de uma unção financeira especial, que quebrará as cadeias da escassez e o capacitará a colher com abundância! [3] são ensinadas como axiomas. Como é possível afirmar que ensinos como esse são ortodoxos quando eles colidem frontalmente com a própria Bíblia e ainda passam por cima de questões sócio-econômicas tão graves e complexas, numa crassa omissão de uma realidade que desafia a igreja em todos os seus segmentos? Assim, não é possível se posicionar como ortodoxia, como faz o pastor Silas Daniel [4] apenas em relação ao teísmo aberto e a teologia da esperança quando temos esse tipo de ensinamento saindo diretamente das fornadas pentecostais e sendo praticado como axioma ortodoxo por grande parte da liderança da igreja. A grande batalha do pentecostalismo ortodoxo não é contra o modernismo liberal mas contra a própria heterodoxia pentecostal que é muito mais original e mais presente – inclusive de forma mais institucional dentro da igreja – e que por isso é vista com reticência, embora jamais venha a ser combatida como desvio doutrinário, exceto por elementos isolados.

Fundamentalismo

O fundamentalismo é uma vertente ativa dentro do movimento pentecostal e pelo menos no pentecostalismo brasileiro conta com apoio da quase totalidade das igrejas embora de fato poucos elementos assumam-se explicitamente fundamentalistas (que eu me lembre, somente o pastor da AD carioca Silas Daniel e o pastor Altair Germano da AD de Pernambuco, mas são casos isolados) contudo, o fundamentalismo está no âmago do pentecostalismo e não poderia ser diferente. Sua defesa da inerrância e sua luta de morte contra toda e qualquer forma de modernismo são, em essência, bandeiras fundamentalistas; de tempos em tempos vê-se comparações esdrúxulas entre o fundamentalismo cristão e o muçulmano, comparações essas que estiveram em voga sobretudo após o 11 de setembro, mas evidentemente tais aproximações além de não considerarem o significado real do fundamentalismo cristão, nivelam-no de uma tal forma que ele se torna obscurantista, como sem dúvida é o fundamentalismo muçulmano. Além disso, não é muito comum se falar de fundamentalismo nas igrejas de modo que eu acho que seja necessário colocar esse assunto em pauta até para que as nossas igrejas se possam posicionar mais claramente sobre seu fundamentalismo ou até, se for o caso, que eventualmente não se posicionem como tais.

 Assembléia de Deus em Osasco SP
 
A bem da verdade reações de caráter fundamentalista sempre existiram, especialmente no meio teológico estadunidense, muito infenso ao contágio da teologia liberal européia. O professor de Teologia Sistemática de Princeton, o presbiteriano Charles Hodge (1797 – 1878) pode ser considerado um dos precursores do fundamentalismo pois sua teologia da inerrância e da revelação cristã é dirigida diretamente contra Schleiermacher, significando nesse sentido uma reação conservadora inteligente e articulada contra o liberalismo (e talvez ainda mais inteligente e articulada que as que vieram depois). O movimento fundamentalista surgiu no começo do século XX através de uma série de artigos publicados nos EUA entre 1910 e 1915 chamados The Fundamentals – a Testeminium to the truth (Os Fundamentais: um testemunho da verdade). Essas série de doze publicações foi precedida, em 1902, da fundação da American Bible League ao que se seguiu logo após a criação da World´s Christian Fundamentals Association, em 1919. Não deixa de ser significativo lembrar que essas publicações forem custeadas por A C Dixon e R A Torrey, dois milionários do petróleo da Califórnia. Ambos os grupos reuniam elementos ligados aos grupos mais conservadores que pretendiam, por meio de uma manifestação pública efetiva, se posicionar contra o avanço do modernismo nas igrejas e, sobretudo, contra a postura desses grupos em relação à alta crítica da Bíblia e ao enfoque liberal,[5] assim, a crítica fundamental do movimento dizia respeito ao modo como o protestantismo estava relativizando conceitos básicos da fé cristã a fim de se contextualizar ao mundo moderno, e principalmente, à exegese bíblica feita de forma radicalmente destrutiva. Alguns conceitos – chave mais tarde seriam adicionados como forma de se posicionarem de forma ainda mais explicita e crítica em relação à teologia liberal em voga na época como a inerrância bíblica, o nascimento virginal de Cristo, sua ressurreição e – possivelmente em decorrência da publicação da Bíblia de Estudo de Scoffield, em 1909 – o milenarismo. É bastante singular o fato de que a crítica fundamentalista embora se posicionasse contra o relativismo modernista, por outro lado, aceitasse a doutrina do quiliasmo que na história da igreja somente fora encampada pelo montanismo do século III – assim, mesmo o fundamentalismo mais ortodoxo admite a heterodoxia do quiliasmo como um bandeira programática.
O que prometia ser um movimento atuante e influente na vida religiosa e social norte-americana que nesse momento passava por uma feroz reação conservadora e isolacionista (retirada da Liga das Nações, em 1919, promulgação da Lei Seca, 1920) logo experimentou uma crise que ainda hoje persegue os seus seguidores. Essa veio em 1925 durante o julgamento do caso Bryan X Scopes. A história em si nada tinha de atraente. Um professor secundarista (Scopes) foi denunciado à justiça do estado de Tenneessee por ensinar a teoria darwinista da evolução. Ora, a justiça daquele estado havia pouco antes aprovado uma lei (Butler Act) que proibia o ensino de qualquer teoria evolucionista que colidisse com a narrativa bíblica da criação, para o qual contou com farto apoio de elementos fundamentalistas. O caso foi amplamente divulgado no rádio e o famoso jornalista antifundamentalista H L Menken escreveu colunas diárias acompanhando toda a rotina do processo. A acusação foi realizada pelo ex candidato populista à presidência dos EUA Willian Jennings Bryan e foi marcada por singular ineficiência e no final Clarence Darrow, advogado contratado pela defesa conseguiu demonstrar que até mesmo o ex secretário de estado norte-americano não dominava plenamente a cultura bíblica além de também se revelar cético com relação à narrativa da criação. No final, Scopes foi multado em 100 dólares, mas o estrago que o episódio causou nos círculos fundamentalistas foi tremendo. Para todos os círculos ficou evidente que fundamentalismo era sinônimo de obscurantismo e anticientificismo em pleno século XX. Não deixa de ser significativo o fato de que, também em decorrência do debate, a legislação que o estado do Tenneessee promulgara para proibir o ensino da teoria da evolução tenha sido pouco depois revogada [6].
O discurso fundamentalista, num sentido teológico, em si mesmo não é problemático. O grande desafio da teologia liberal do século XIX imposto à igreja foi procurar não somente responder de forma apologética ao relativismo teológico liberal, mas, principalmente, instrumentalizar-se exegeticamente para respaldar a ortodoxia uma vez que a maior crítica do liberalismo teológico diz respeito à própria estruturação do AT e do NT. Hoje mesmo inclusive, com os trabalhos competentes de exegetas como o inglês J A T Robinson e os alemães Martim Benghel, Gerhard Hörster e Joaquim Jeremias a crítica fundamentalista se encontra solidamente respaldada. O problema do fundamentalismo e que persiste até hoje, diz respeito a como tratar as questões científicas do seu tempo de forma que o sentido de ortodoxia não se aproxime ou se associe com o obscurantismo, o que infelizmente ainda é uma práxis que se faz presente nas searas fundamentalistas. Por outro lado, mesmo quando Silas Daniel e Isael Araujo insistem em se distanciar de fatos como esse e afirmem que não tem problema nenhum em conciliar ciência com religião, a verdade é que ainda hoje o fundamentalismo de facto não consegue lidar com esse problema. O apoio da quase totalidade dos grupos fundamentalistas ao criacionismo é um exemplo disso. A questão não está em se discutir se a narrativa de Gênesis 1 deve ser tomada ao pé da letra em seu sentido literal ou até que ponto a idéia do design inteligente pode ser corroborada como prova de que a narrativa bíblica coaduna com a ciência, ou mesmo, como apregoam os céticos ou simplesmente incrédulos, se tudo isso não passa de mitologia de segundo grau. A questão é até que ponto podemos dizer que o criacionismo é, no sentido científico do termo, uma teoria científica e não apenas uma releitura pretensamente científica do argumento de Tomás de Aquino acerca da origem primeva de todas as coisas. Da forma como os criacionistas colocam a questão, o criacionismo torna-se tão simplesmente uma resposta apologética à teoria da evolução e nada mais do que isso. Evidentemente a teoria da evolução não pode ser considerada no sentido que se quer dar hoje pela ciência, um axioma, uma verdade em si mesma, principalmente porque as tais provas da evolução orgânica dos seres vivos ainda não foram encontradas – apenas a título de exemplo, em 1997 as pesquisas realizadas por um grupo de cientistas norte-americanos e alemães com base em fragmentos de DNA encontrados no osso de um homem de Neanderthal abalaram a comunidade científica que tinha até então a idéia de que esse hominídio seria um descendente em linha direta dos seres humanos atuais. No entanto, o material genético encontrado no Neanderthal é muito diferente daquele existente nos seres humanos atuais. Mesmo quando se admite que tal resultado não seja conclusivo, ele não deixa de ser uma evidência poderosa [7]. Por outro lado, a descoberta de que 99% do nosso DNA é idêntico ao Chipanzé simplesmente não responde a pergunta já que o projeto Genoma também identificou simetrias humanas no camundongo (65%), na mosca de frutas (47%), na mostarda (20%) e até na levedura da cerveja (15%). De qual dessas espécies evoluiu então o homem? [8] No mínimo revela que toda a estrutura da teoria da evolução até então montada sob bases morfológico-fisológicas, está agora passando pelo crivo pela avaliação mais precisa e objetiva da pesquisa genética e que sob esse enfoque muita coisa poderá ser respaldada ou rejeitada e que de uma mesma essência derivaram todas as coisas. Isso não significa que a teoria da evolução seja questionada, mas coloca-a sob o crivo de uma nova dinâmica de investigação que considerará daqui para frente às pistas fornecidas pelos elementos orgânicos que constituem a essência de todos os seres vivos e que as conclusões podem não ser mais tão simplistas e objetivas como se deduzia até recentemente. Contudo, para que o discurso do design inteligente ganhe eco seria necessário pelo menos que o parecer da comunidade científica respaldasse isso o que não é o caso. O criacionismo é uma resposta apologética moldada como ciência e nada mais do que isso. Não pode ser tratada como teoria científica porque não é moldada cientificamente e sim apologeticamente a partir de uma leitura da Bíblia moldada segundo as pistas que a pesquisa do design inteligente apresenta, e também não pode ser considerada original já que o discurso quanto ao ponto de partida de todas as coisas aparece também na escolástica tomista, não sendo, portanto, coisa nova. No seu afã de buscar uma saída para explicar o processo de surgimento da vida na terra, os fundamentalistas, ao aceitarem o criacionismo como teoria abalizada repetem mais uma vez o erro crasso cometido no passado no caso Bryan X Scopes e mostram que realmente não aprenderam nada com a história.

Luighi Francescon (1866 - 1964), fundador da primeira Congregação Cristã no Brasil em S.Paulo (1910)
Mais preocupante é quando se tenta impor a teoria criacionista como parte do currículo científico das escolas quando não se encontra abalizamento para isso. Em tempos recentes o estado do Rio de Janeiro protagonizou esse retrocesso quando a então governadora local promulgou lei nesse sentido com apoio de grupos evangélicos fundamentalistas. Se ela tivesse se ocupado em restabelecer o ensino religioso nas escolas – e aí entraríamos em outra questão já que pela diversidade religiosa de nosso povo, qual o ensino religioso seria parâmetro nas escolas públicas? – até vá lá porque como proposta apologética o criacionismo ali teria o seu campo fértil de atuação. Porém, no âmbito da escola pública, sem bases científicas sustentáveis e principalmente ignorando a laicização do ensino público estabelecida pela Constituição de 1988 e pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996, isso é um retrocesso que jamais poderia ser concebido e que demonstra que realmente, da forma como defendem suas bandeiras os fundamentalistas continuam sendo um segmento sectário e bastante retrógrado de nossa sociedade. Na sua luta contra o modernismo, o fundamentalismo escolheu o campo errado do seu combate, pois ao invés de pugnar pela pregação da verdade bíblica e fortalecê-la no seu campo de trabalho – e seu campo de trabalho é a pesquisa histórico – crítica e exegética – ela investe contra a ciência e corrobora a afirmação dos críticos da religião – de toda religião – de que o fundamentalismo inda enxerga o mundo com os olhos voltados para a sociedade pré científica do Antigo Testamento.

Constantinianismo

O pentecostalismo é decerto o segmento mais constantiniano das igrejas evangélicas brasileiras. Seu constantinianismo é tão extremado que idealiza como suprema panacéia para a solução de nossos problemas, a derradeira correção dos nossos males, a eleição de um governante cristão (isto é, evangélico) para a presidência o que automaticamente – é o que se deduz – implicará em leis cristãs promulgadas para moldar e nivelar a sociedade como um todo segundo valores cristãos. O salmo 33.12 – feliz a nação cujo Deus é o Senhor – é o mote preferido de tais grupos e a base bíblica de sua doutrina.
Em 1980 o pastor assembleiano Gustavo Kessler, então ocupando o setor de jornalismo da Casa Publicadora das Assembléias de Deus (CPAD) escreveu indignado no Mensageiro da Paz acerca do projeto de lei do deputado Jorge Arbage oficializando o feriado de 12 de outubro como dia dedicado a Aparecida. O projeto, proposto no mesmo ano da primeira visita do papa João Paulo II ao Brasil, era descrito como sendo atentatório à liberdade de expressão e como sinal de que a Igreja Católica pretendia influir nos destinos do país. O texto de parco valor literário citava ainda Rui Barbosa: só dois deputados evangélicos falaram para justificar seu voto contrário à proposição, mas na sua fala esteve ausente o ardor que vence, o ardor da Águia de Haia, de vez que o âmago da questão não é a situação econômica, mas a liberdade de consciência no país. (...) a Roma papal, sabei: é a mesma dos séculos passados! A mesma que a história nos mostra. A mesma que queimou centenas e centenas de milhares de nossos irmãos nas fogueiras da famigerada inquisição [9].
 
O pregador assembleiano Manoel de Mello (1929 - 1990), fundador da Igreja O Brasil para Cristo em 1955.
O discurso de Kessler poderia até passar por autêntico não fosse por alguns detalhes. No período de 1970 – 1974 o Ministério da Educação, na época ocupado pelo coronel Jarbas Passarinho, subvencionou as AD a fim de que pudessem construir o seu Instituto Teológico em Belém, posteriormente declarado de utilidade pública ficando assim isento de impostos – mais precisamente, a subvenção foi de U$ 28,035.00. O mesmo militar, logo depois eleito senador pelo estado do Pará, obteve junto à Superintendência para o Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM) uma subvenção pública para o abrigo de idosos Etelvina Bloise, adquirido ao tempo em que o pastor Alcebíades de Vasconcelos dirigiu a AD de Belém [10].  O mesmo pastor Alcebíades de Vasconcelos foi responsável pelas comemorações do jubileu de ouro das AD no Pará em 1961, numa festividade que contou, entre outras presenças, com as do governador do Pará e do prefeito de Belém [11].
Presenças de políticos e ministros de estado são ocasionalmente assinaladas nos encontros da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil (CGADB) ou similares. O marechal Henrique Lott, ministro da guerra de Juscelino Kubicheck, esteve presente como convidado da 16º CGADB no Rio (16 a 21 de novembro de 1959). Nota por demais animadora e honrosa foi a visita levada a efeito por sua excelência, o ministro de estado dos negócios da guerra, o marechal Henrique Duffles Teixeira Lott, no dia 20 de novembro quando se congratulou com todos os pastores e convencionais presentes, pelo magnífico espetáculo de fé cristã a que assistiu, merecedor dos mais vivos ecômios [12]. No 2º Congresso Mundial das AD realizado em S.Paulo em 1997 as presenças assinaladas foram as do próprio presidente Fernando Henrique, agnóstico, do ministro da justiça Íris Rezende, evangélico, e do governador de S.Paulo Mário Covas (que era espírita) ao que se seguiu depois uma declaração de apoio dos evangélicos ali reunidos ao seu governo como assinala Silas Daniel ao reproduzir a Folha de S.Paulo do dia seguinte ao evento [13]. Na 34º CGADB em S.Paulo (11 a 15 de janeiro de 1999) estiveram presentes Benedita da Silva, então vice-governadora do Rio e Benedito Domingos, vice-governador do DF, ambos membros das AD na época [14]. E na convenção seguinte reunida em Maceió (27 – 31 de janeiro de 2003), o governador alagoano Ronaldo Lessa, o vice-governador do Rio Grande do Norte e o vice-prefeito de Maceió, além de parlamentares do bloco parlamentar evangélico [15].
Desde que a 26º CGADB reunida em Belo Horizonte (18 – 23 de janeiro de 1981) tratou a questão do envolvimento de ministros evangélicos com a política [16] que a participação evangélica vem se notabilizando cada vez mais na política nacional. Para a constituinte de 1987 – 88 só as AD elegeram 13 parlamentares de um total de 27 pentecostais num universo total de 49 parlamentares considerando outros grupos evangélicos [17]. E na legislatura de 2003 – 07 esse número subiria ainda mais: 64 deputados sendo 23 ligados às AD, 17 à Igreja Universal, 10 aos batistas e 4 à Igreja do Evangelho Quadrangular [18]. Em 1999 haviam dois senadores evangélicos, Íris Rezende, da Igreja Cristã Evangélica, eleito pelo PMDB de Goiás, e Marina Silva, assembleiana, eleita pelo PT do Acre. Em 2003 seriam seis: Paulo Otávio, da igreja Sara Nossa Terra, eleito pelo PFL de Goiás; Marcelo Crivella, da IURD eleito pelo PRB do Rio; Magno Malta, batista renovado eleito pelo PL capixab;, Francisco Pereira, posteriormente empossado como vice-governador do DF e dona Íris Rezende, do PMDB de Goiás. Essa representação só teve uma baixa decorrente da saída de Marina Silva do Senado para ocupar o ministério do meio ambiente do governo Lula, em 2003. Com exceção de Marina Silva, política de orientação independente de atuação marcante nas questões ambientais, sem vínculos políticos com o ministério, todos os demais figuram na mesma categoria, isto é, políticos que estabeleceram suas bases políticas a partir da igreja e fazem a política paroquial no sentido mais literal do termo.
A questão do constantinianismo no meio pentecostal decorre de um debate histórico sobre a questão da representação política evangélica que sempre houve, e portanto, não é prerrogativa recente, nem tampouco está ligada a essa ou aquela denominação. O médico piauiense Joaquim Nogueira Paranaguá (1855 – 1926) autor do projeto de lei que autorizou o governo federal a demarcar o sítio onde seria construída a futura capital, embora não fizesse a política no sentido eclesiástico (eleito por uma denominação e compromissado politicamente com ela) pode ainda assim ser considerado o primeiro político evangélico brasileiro, tendo exercido o vice – governo do seu estado e o mandato de deputado federal em várias legislaturas da República Velha. Na constituinte de 1933 – 1934 a Confederação Evangélica do Brasil (CEB) se mobilizou pela primeira vez para eleger deputados compromissados com a liberdade religiosa num momento em que o catolicismo investia diretamente em favor do restabelecimento dos privilégios outrora desfrutados tendo se destacado na discussão do projeto constitucional o deputado Guaracy Silveira (1893 – 1953) pastor metodista de S.Paulo. Contudo, em ambos os momentos, a representação política foi permitida e reconhecida como necessidade especialmente em face de duas situações concretas: a situação minoritária da comunidade evangélica em face de um catolicismo organizado política e intelectualmente a pugnar praticamente desde o advento da República pelo restabelecimento dos seus privilégios, e em virtude da necessidade de se afirmar a participação da comunidade evangélica na vida social e política do país a fim de que não fosse mais caracterizada como segmento alienado e desprovido de vinculações com a realidade brasileira. Acima de tudo, porém, essa representação evangélica decorreu do reconhecimento da excepcionalidade de uma situação social que urgia tratamento e que não mais podia ser escamoteada. Como disse o reverendo episcopal Egmond Machado no 5º Congresso Evangélico do Brasil reunido em S.Paulo em dezembro de 1936:

Urge incrementar nas igrejas a consciência social no que respeita às relações internacionais, aos problemas econômicos e aos atritos entre as classes componentes de nosso organismo industrial. Se o objetivo da religião de modo algum consiste no estabelecimento ou manutenção de determinado sistema político – social, não nos cabe inferir disso, que o cristianismo se resume a atitudes meramente platônicas e inovadoras. Não seria ele, nesse caso, a religião da fraternidade. Temos, todavia, que reconhecer que nem sempre os nossos púlpitos se tem incendiado com as brasas divinas que tombam do altar e creio mesmo que não errarei em afiançar que por vezes nos custa caro, a nós do clero, fugir da tentação de trocar o ardor revolucionário do espírito pelo comodismo dogmático da letra. A consciência social é, no cristianismo, um fruto que esponta das entranhas do Evangelho (...) há igrejas situadas geograficamente em locais onde predomina o elemento operário e onde é mais clamorosa a necessidade de uma atuação mais direta e urgente. [19]

Egmond Machado reconhecia a necessidade da igreja de se posicionar em face dos desafios do seu tempo, mas não para impor um sistema ou conjunto de valores, nem tampouco para apontar esse ou aquele sistema porque achamos preferível confessar a incapacidade humana de afixar as características de uma ordem social imutável e perfeita. Deus e a alma do homem exigem para usa operação, dinâmica, iterativa mudança e ininterrupto aperfeiçoamento de nossas múltiplas relações, isto só de si bastaria para justificar nossa repugnância à quaisquer compromissos de cor partidária [20]. Os sistemas políticos são perecíveis, sua durabilidade está ligada à necessidade e á praticidade. Mas o drama da humanidade permanece. A igreja é chamada para clamar contra a injustiça e o arbítrio humano seja ele de que espécie seja, a dinâmica das relações humanas pede o respeito independentemente de o governo ser de esquerda ou de direita porque a integralidade do homem precisa ser respeitada. Qualquer ideologia ou sistema de valores sócio – econômicos que violente esses princípios deve ser denunciado por anticristão e pagão. “Cristianus sum”, pertenço a Cristo e jamais o trocarei pelos vossos dogmas oníparos, mas falazes, promissos, mas paliços e diabólicos [21]. Se, como diz Egmond Machado, nenhuma ordem humana brotou aos pés de Jesus nem está inserida dos ensinamentos do Cristo, logo todas são ímpias e devem merecer a crítica da Igreja não no sentido de pretender com isso estabelecer para si o primado da justiça e da equidade porque não é o governo do mundo que a Bíblia estabelece para a igreja já que o Reino de Deus não é desse mundo (Jo 18.36), e além disso, o próprio mundo jaz no maligno (1 Jo 5.19). A missão da igreja é apontar no evangelho o caminho da justiça. Contudo, isso não pode pressupor alienação na medida em que as dramáticas condições sociais de nossa sociedade exijam dela posições mais efetivas [22]. No momento em que ela empalma o poder e impõe leis cristãs – ou pretensamente cristãs – para todo o conjunto da sociedade sem que a liberdade humana seja considerada, nem o amor levado em conta e nem a justiça mensurada, então teremos um estado teocrático ditatorial com uma pequena casta detém o direito indissolúvel de ditar os padrões e comportamentos morais e sociais para toda uma sociedade, criando com isso tal antipatia e desprezo pela fé que na primeira oportunidade irão rejeitá-la, assim como a fé e a mensagem de fé guardada e pregada pela mesma igreja. Na tentativa de nivelar a sociedade a partir do púlpito, a Genebra calvinista se converteu numa versão protestante de Toledo católica ao passo que a experiência puritana de Cromwell resultou na ainda mais desenfreada libertinagem dos últimos Stuarts ingleses com seu ponto culminante na dinastia de Hannover quando a Inglaterra inteira mergulhou numa crise social e moral que Wesley sentiu da forma mais desesperada em seu tempo. Essas experiências históricas deveriam bastar como exemplo do que acontece quando a igreja se arraiga do papel de participante direto das decisões institucionais e passa ela própria a ditar os padrões sociais e morais conforme os dogmas que instilem suas decisões.
O pentecostalismo sofre da mesma doença que atacou o protestantismo magisterial do século XVI. Ao querer estabelecer leis cristãs para a regência da sociedade civil esquecem que embora sejam 25% da população não são ainda todo o conjunto da população e, portanto, não podem impor essa ou aquela questão como projeto de lei considerando que a diversidade de expressões religiosas em nosso país e ainda precisam aprender a conviver com essa diversidade de expressões cúlticas não porque ecumenicamente seja o certo mas porque a Constituição de 1988 garante essa liberdade, ou seja, se queremos e pugnamos tanto a liberdade religiosa, devemos também reconhecer que ela vale do mesmo modo para os católicos, os muçulmanos, os judeus, os budistas e os praticantes dos cultos afros. Pode-se até dizer que no mundo muçulmano tal coisa de fato não exista e que não deveríamos agir dessa forma mas aqui estamos numa sociedade ocidental que se rege pelos princípios do respeito e da integralidade do bem comum e é diante desse princípio e dentro da nossa realidade que a igreja deve agir e pregar a Cristo nas condições em que o meio se apresenta. O crescimento evangélico – pentecostal no Brasil definitivamente não é um crescimento qualitativo, mas exclusivamente quantitativo e o pior: nas relações institucionais dentro das igrejas ainda marcado por um ranço autoritário que urge depressa suprimir se quisermos que a comunidade pentecostal não seja mais taxada como um bando de obscurantistas fanáticos que só fazem aquilo que o pastor manda. Critica-se tanto o catolicismo pelo viés absolutista da autoridade papal, mas em que o pentecostalismo se difere se suas estruturas governativas são ditadas pelo nepotismo e o despotismo que tornam algumas denominações verdadeiras Ltdas? Até o fundamentalista Silas Daniel reconhece que a ação política não deveria ser a preocupação exclusiva da Igreja: em vez de apenas aumentar o número de representantes no Congresso Nacional para tentar deter leis anticristãs, devemos, cada um de nós, procurar exercer a influência cristã como sal e luz, nos lugares onde Deus nos colocou. O que adianta termos 100 representantes no Congresso Nacional se a própria Igreja não se engaja pela transformação do país? [23] A despeito do crescimento do número de evangélicos, o país continua igual ou pior que dantes [24].


Assembléia de Deus (Madureira) em Cachoeiras de Macacu (RJ)


Embora o pastor da AD carioca não negue a importância do papel político na representação evangélica [25], precisamos verificar de que modo essa representação foi atuante e em que aspectos ela de fato representou uma contribuição meritória para a sociedade para que aí então se decida se esse tipo de participação política é ainda preferível ao engajamento sadio que propõe o ministro assembleiano. A Frente Parlamentar Evangélica que iniciou suas atividades na 52º Legislatura (2003 – 2007), a despeito do seu tamanho teve uma atuação pouco entusiasmadora: o projeto de lei 10.826/03 (Estatuto do Desarmamento) recebeu uma alteração do deputado João Campos (PSDB GO) ligado à AD Madureira que excluiu as igrejas da obrigatoriedade de instalarem detectores de metal nos templos. O projeto de lei 2401/03 (Lei de Biossegurança) foi vetado graças a uma articulação dos deputados evangélicos e católicos por conta das implicações éticas envolvidas na pesquisa com células – tronco. O ensino do criacionismo como parte da grade curricular das escolas públicas foi defendido por meio de uma comissão liderada pelo deputado pastor Reinaldo (PTB RS) da Igreja do Evangelho Quadrangular. O projeto de reforma política foi debatido numa comissão da qual fizeram parte os deputados Milton Cardias (PTB RS) e Gilberto Nascimento (PMDB SP), assembleianos, e Carlos Rodrigues (PL RJ), da IURD, que tentou apresentar um substitutivo para o projeto de reforma política do deputado Ronaldo Caiado (PFL GO). Mas como diz Saulo Batista, a maior vitória da FPE foi sem dúvida a alteração do Código Civil de 1916 por meio do projeto de lei 643/03 que deu nova redação ao art.44 da lei 10.406 de 10/01/2002 onde as igrejas e outras organizações religiosas são plenamente reconhecidas como pessoas jurídicas de Direito Privado com total autonomia em relação ao poder público [26]. E na verdade esse último projeto não é uma vitória exclusiva da FPE já que sua apresentação e aprovação por unanimidade no plenário do Congresso envolveu, na verdade, um mutirão de parlamentares.
O constantinianismo é um desvirtuamento radical da verdadeira militância social cristã como até mesmo os mais intransigentes militantes fundamentalistas reconhecem, ainda que não se admitam constantinianos. Ele parte da idéia de que um estado cristão é encimado por governo cristão e leis cristãs quando na verdade o que modela uma sociedade cristã é o seu reconhecimento como parte de um povo peregrino que está de passagem por esse mundo, mas que enquanto no mundo exercerá o seu papel de buscar a justiça e a integralidade plena do ser humano em todas as suas necessidades porque sendo o ser humano modelado a imagem e semelhança de Deus não pode ser aviltado, humilhado, vilipendiado ou explorado, algo que é reconhecido até por um documento secular como é a Declaração Universal dos Direitos Humanos, quanto mais pela comunidade cristã. Uma sociedade pluralista não pode ser regida por um segmento porque isso caracteriza a imposição da vontade de um grupo sobre os demais seja ele 25% ou quiçá 50% da população, anulando, portanto, o princípio da representatividade. Tanto quanto o feriado de 12 de outubro representa uma arbitrariedade porque violenta a laicidade do Estado nacional e que se torna ainda mais hedionda por ter sido decorrente de uma proposição de elemento do poder legislativo, como também a idéia de um presidente “cristão” não passa de panacéia porque na verdade este presidente não irá governar apenas para um segmento da comunidade nacional mas para o país como um todo. Por exemplo: Como tratará a questão do ensino religioso nas escolas diante dos novos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) onde são contempladas as minorias étnicas, os grupos formadores da identidade nacional com suas respectivas culturas, como os negros e os índios, as religiões afros e outras religiões? Como será tratada a questão do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional que é em sua maior parte ligado a sítios históricos formados por igrejas e mosteiros católicos, todos tombados pelo IPHAN? Como será tratada a questão do aborto, tema tão caro às bancadas evangélicas? Se o aborto for proibido pura e simplesmente, a única coisa que se estará fazendo é tão somente negar o atendimento hospitalar público à mãe gestante que queira suspender a gestação, mas nada a impedirá de procurar uma clínica clandestina ou até mesmo de causar o autoaborto que é igualmente responsável pelas mortes de tantas adolescentes em nosso país quanto o aborto ilegal. Porém, ao invés de pura e simplesmente proibir o aborto, por que não começar a discutir de forma séria e pedagógica a questão da sexualidade entre os grupos de jovens e mocidade da igreja, reconhecendo finalmente a presciência dessa questão na vida moderna, tão bombardeados que somos pela linguagem imagética erotizada, e mesmo por outros meios como a música, que podem ser facilmente localizados e consumidos em qualquer programa de TV ou anuncio publicitário, CD, DVD, Internet, etc, sem mais a necessidade do consumo puro e simples de pornografia? A proibição do aborto em nossos dias tem impedido a gravidez cada vez mais precoce, decorrente da iniciação sexual cada vez mais prematura dos adolescentes? Não seria mais prático ao invés de se impedir a contracepção trabalhar a prevenção da própria concepção que é, em essência, uma questão oriunda da alienação de nosso tempo, da desinformação e falta de perspectivas e referências da mocidade que as levam canalizar suas tensões existenciais para a satisfação de suas necessidades afetivas e inquietações existenciais? O constantinianismo não aborda essas questões porque no fundo concebe uma sociedade modelada do alto e nesse sentido as questões relativas a outros segmentos são simplesmente aderentes sendo tratadas de soslaio ou escamoteadas. Retorna-se assim ao erro das igrejas territoriais européias do período da Reforma e que Spener identificou lastimosamente nos Pia Desidéria, achar que uma sociedade cristã é uma sociedade protestante seja ela luterana, calvinista ou o que for e que no entanto, não é capaz de converter os grupos sectários que vivem em sua volta como judeus e católicos porque no fundo em nada se diferem daqueles em virtude e excelência, mas até mesmo o contrário. Pior que isso: realça estranho conúbio entre o pentecostalismo mais fundamentalista e a teologia liberal de um Wilhelm De Wette (1780 – 1849) que afirmava que na comunidade espiritual não havia separação entre Estado e Igreja. Ou se admite a separação radical entre todos os grupos e que o Estado é totalmente laico, e portanto isento de religião, ou os grupos fundamentalistas deverão admitir humildemente que seu projeto constantiniano passa pelo empossamento do Estado e seu nivelamento institucional à luz da Bíblia já que é impossível se defender a bandeira de um governo cristão que ao mesmo tempo dialogue com tais questões e entre em entendimento com tais grupos, o que não se tem visto até agora.
Além disso, como já se reconhece, o fato de 25% da população brasileira ser evangélica não quer dizer que esses 25% sejam cristãos de facto como também não se pode dizer que os 65% ou 70% restantes sejam católicos praticantes. A circulação em nosso meio de obras como essa Bíblia de Batalha Espiritual e Vitória Financeira e todo alfarrábio da teologia da prosperidade tratado de forma axiomática e dogmática em nossas igrejas e comunidades e o baixo nível da pregação de nossos tempos enfocado quase que inteiramente na questão material, demonstra bem o nível de vida cristã desse século. Isso pode explicar em parte, embora é claro que não no todo, o fato de que os deputados evangélicos tenham tido uma atuação tão pífia na 52º Legislatura marcada pelos escândalos que envolveram tantos nomes do meio evangélico. Eles são o reflexo do nosso meio, o extrato dessa massa. Assim, o projeto que queremos para o país deve passar primeiro pelo que nós reconhecemos plenamente como comunidade cristã e se essa comunidade está inserida na Bíblia e pode ser dela tomada como referência. Depois, de que modo essa comunidade cristã pode, de algum modo e na sua área contribuir para o melhoramento das condições sociais de nosso povo de forma integral (ou seja, não apenas financeiramente) e finalmente, colocar em prática essa ações. Do modo como a proposta é apresentada hoje no âmbito das igrejas, todavia, as perspectivas não são nada animadoras, senão se considerar a dinâmica dos diversos segmentos sociais e a necessidade de um projeto de país que contemple todos os aspectos da vida nacional e em que o concurso da Igreja pode ser de utilidade. Nisso penso que seja importante registrar dois depoimentos que, penso eu, abordam ambas as dinâmicas, o primeiro, do deputado baiano Walter Pinheiro, do PT, ligado à Igreja Batista e com trânsito na FPE embora não tenha oficialmente feito parte da bancada.

Antigamente a “bancada evangélica” era constituída só para barganhar. A frente avançou, modificou o caráter. Eu não participei da bancada evangélica porque discordava exatamente desse mérito. (...) tenho participado da frente. (...) acho que a frente ainda tem um pouco dessa distorção, mas ela já ampliou bastante, conseguiu (...) entrar no debate. (...) mesmo que aqui ou acolá vincule o tema com aspectos religiosos, mas a bancada tem avançado também do ponto de vista das políticas sociais, ainda que com dificuldades, mas acho que a própria transformação de Frente obriga a que você discuta segmentos. (...) é preciso ainda ampliar, é preciso é, melhorar bastante, qualificar, e que eu acho que essa Frente trouxe uma novidade, que não é a questão só do segmento mas a importância do segmento ter capacidade de enxergar o todo da política e atuar inclusive sintonizando as questões do segmento com as questões da sociedade. (Entrevista do deputado Walter Pinheiro PT BA, 17/06/04). [27]

O outro é de uma assessora parlamentar identificada como Mônica e que esteve intimamente envolvida nas atividades e nos dramas da FPE na 52º Legislatura:

Se eu fosse dar uma nota de um a dez (referente a avaliação da FPE) eu daria três, três considerando resultados, considerando atuação. Mas se eu fosse considerar intenção eu daria, acho que em torno de seis. Só que não é com boa intenção apenas que se faz um bom trabalho parlamentar. Não é movido de grande paixão pelos pecadores que esses homens vão chegar aqui e vão brilhar. Não! Existe dentro dos parlamentares evangélicos muita gente bem intencionada. E rotular todos eles e colocar todos num paredão como corruptos é um pecado, inclusive. Porque há pessoas ali que pensam que estão com a unção de José, vieram ao palácio e se estão no palácio terão que alimentar seu povo. Há alguns ali que acham que estão com unção de Daniel, que são homens que foram escolhidos, que vão influenciar num reino. Alguns até que se acham Ester, que fora trazida, que era Hadassa, e foi transformada em Ester. Então há todo esse sentimento ao de querer fazer alguma coisa. De querer fazer a obra de Deus. De querer implantar o reino de Deus. Então, se eu for considerar a intenção, eu daria seis. Se eu for considerar resultado, eu reafirmo, minha nota seria três.
(Entrevista da assessora Mônica, Brasília, setembro, 2006) [28].

Desses dois depoimentos quero chamar atenção para três coisas: primeiro: no contato com diversos setores da sociedade a FPE foi forçada a reconhecer, contra a sua vontade, que era representante da sociedade civil como um todo independentemente da identidade confessional do congressista ou dos seus vínculos ministeriais. Eles são representantes do povo independentemente de esse povo ser assembleiano, iurdiano, quadrangular, católico, espírita ou o que mais for por aí, porque o Poder Legislativo expressa o anseio da sociedade uma vez que representa essa mesma sociedade não é mais propriedade desse ou daquele grupo mas são porta–vozes de toda sociedade civil ainda que seus votos o identifiquem com segmentos específicos dessa mesma sociedade. Ele será um representante desse grupo dentro da representação ampla da sociedade como um todo, ou seja, não poderá legislar em detrimento de outrem porque também aqueles que são deferidos são parte integrante da sociedade civil. Segundo: não só unção (se é que para isso haja alguma unção) é necessária para a carreira política, mas essencialmente e prioritariamente o projeto político, e qual o projeto político não só da FPE mas também dos seus eleitores ou cabos eleitorais e que até hoje não ficou suficientemente claro? Terceiro: a idéia de se trazer o reino de Deus na terra aproxima o constantinianismo pentecostal do Evangelho Social norte-americano e da Teologia da Libertação. Mesmo que se discorde radicalmente da orientação ideológica e teológica dessas duas teologias, o fato de haverem pessoas que admitem e pratiquem essa relação de imanência projetando o Reino de Deus como projeto político, demonstra que também no constantinianismo pentecostal se admite a realização desse reino na terra por meio da incorporação das instituições políticas e o nivelamento da sociedade pelo alto. 

 NOTAS: 



 
[1] PEARLMAN Myer. Doutrinas Fundamentais da Bíblia, p.20.
[2] Mensageiro da Paz, Artigos Históricos, III, A Bíblia não tem Contradição, Abril 1998, p. 178 – 181.
[3] Ver o comentário do pastor assembleiano Altair Germano acerca dessa Bíblia no seu blog http://www.altairgermano.com/2008/02/pobreza-na-perspectiva-da-bblia-de.html acesso 09/02/10, 10:27.
[4] DANIEL Silas. A Sedução das Novas Teologias, p. 194.
[5] ARAUJO Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal, p. 613 – 614.
[6] Tanto que mesmo fundamentalistas radicais ainda hoje se esforçam em se dissociar desse tipo de fundamentalismo como Isael de Araujo (ob cit, p. 616) e Silas Daniel (A Sedução das Novas Teologias, p. 228 – 229).
[9] Mensageiro da Paz, Artigos Históricos III. Liberdade Religiosa Ameaçada no Brasil, setembro, 1980, p. 19 – 21.
[10] BATISTA Saulo. Pentecostais e Neopentecostais na Política Brasileira, p. 117 – 118.
[12] DANIEL Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil, p. 320.
[13] Ibidem, p. 606 – 607.
[14] Ibidem, p. 609.
[15] Ibidem, p. 646.
[16] Ibidem, p. 476 – 477.
[17] BATISTA Saulo, ob cit, p. 153.
[18] Ibidem, p. 182.
[19] Apreciação e Diretrizes. 5º Congresso Evangélico do Brasil, p. 131.
[20] Ibidem, p. 125 - 128.
[21] Ibidem, p. 128.
[22] Espelho disso é a proposta do proposta do professor José Cardoso d Fonseca, do Seminário Metodista do Granbery de Juiz de Fora, que no 5º Congresso Evangélico Brasileiro sugeriu a implementação de programas de alfabetização nas igrejas e ainda a criação de faculdades de pedagogia evangélicas (Apreciação e Diretrizes, p. 56 – 57).
[23] DANIEL Silas. A Sedução das Novas Teologias, p. 238.
[24] Ibidem, p. 236.
[25] Ibidem, p. 238
[26] BATISTA Saulo, ob cit, p. 310 – 314. O mesmo autor ainda lembra outras atividades da FPE: audiência com o ministro das comunicações para pleitear concessões de rádio e TV; buscar junto ao Ministério da Educação o reconhecimento de facto dos cursos de Teologia; apoio ao programa de erradicação do analfabetismo; discussão sobre projeto de lei que restringia programação religiosa no rádio e TV; discussão da legislação ambiental sobre a penalização de igrejas sobre emissões de ruídos em cultos e celebrações (lei do psiu) e debate sobre a contribuição previdenciária a partir da regulamentação profissional do ministro evangélico para o cálculo da aposentadoria, p. 310.
[27] BATISTA Saulo, ob cit, p. 376.
[28] Ibidem, p. 376.
 




BIBLIOGRAFIA:

APRECIAÇÃO E DIRETRIZES. 5º Congresso Evangélico do Brasil. Coleção Erasmo Braga. Rio de Janeiro, Centro Brasileiro de Publicidade, 1937.

ARAUJO Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro, CPAD, 2007.

BATISTA Saulo. Pentecostais e Neopentecostais na política brasileira. S.Paulo, Instituto Metodista Isabel Hendrix, Anablume Editora, 2009.

DANIEL Silas. A Sedução das Novas Teologias. Rio de Janeiro, CPAD, 2007.
História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro, CPAD, 2004.   

MENSAGEIRO DA PAZ, Artigos Históricos, vol.3. Rio de Janeiro, CPAD, 2004.  

PEARLMAN Myer. Conhecendo as Doutrinas da Bíblia. S.Paulo, Vida, 2006.                                      

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

DICIONÁRIO TEOLÓGICO: Episcopado

EPISCOPADO


 
Igreja Metodista do Brasil em Vila Isabel, Rio. O metodismo brasileiro (histórico e pentecostal) segue o governo episcopal.




O episcopalismo é a antítese do congregacionalismo. Enquanto nesse último as igrejas funcionam de forma autônoma sem nenhum vínculo entre si exceto pela unidade doutrinária, no episcopalismo o bispo exerce uma autoridade normativa superintendendo várias igrejas ou comunidades. Essa autoridade, todavia, não é exercida de forma discricionária já que nas versões episcopais o Sínodo (Igrejas Luterana e Anglicana) ou o Concílio (Metodistas) constituem o colegiado governante da igreja que elege um dentre seus pares para a presidência do Concílio ou Colégio Episcopal. As funções desse consistório são as mais variadas, desde o acompanhamento da rotina eclesial das diversas comunidades até baixar instruções normativas para as igrejas, transferir pastores ou superintendentes ou supervisionar as relações da igreja com outros movimentos e com a legislação vigente. Em suma, o bispo territorial, ou regional ou superintendente, representa uma comunidade de pessoas que não se resume à uma igreja mas que representa a igreja de Cristo. O bispo, escreve Jubal Pereira Neves, da Diocese Sul-Oriental da Igreja Anglicana no Brasil, expressa a vida dessa "assembléia de filhos e filhas de Deus." Ele é responsável pela determinada área geográfica (diocese), onde, além de supervisionar e "pastorear" o clero e o povo (episkopos), se constitui como o guardião da fé (do ensino dos apóstolos), mantém a comunhão, preside a liturgia, lidera a missão; esta autoridade lhe é concedida por seus predecessores. E passará depois aos seus sucessores. (DICIONÁRIO BRASILEIRO DE TEOLOGIA, p. 351). O conceito de sucessão, no episcopalismo, remete diretamente a linha apostólica, e visa garantir desse modo tanto a constitucionalidade apostólica dessa mesma sucessão e por fim, a vinculação histórica da igreja presente com a ecclesia triunphants, a comunidade cristã dos seus primórdios. 



 
A bispa Dra. Margot Käsemann, eleita em 2009 para a 
presidência da Igreja Luterana da Alemanha



 
Os reformadores tinham em geral a idéia de que o bispo não tinha funções muito distintas das de um diácono ou presbítero. Para Lutero (Comentário à 13º Tese de Eck sobre o primado da autoridade do papa), o bispo é qualquer sacerdote e tem o mais pleno poder sobre o confidente, como é opinião comum de toda a Igreja e como se prova claramente a partir das epístolas do beato Cipreiano. Portanto, nem o papa é superior aos bispos, nem o bispo é superior aos presbíteros (LUTERO Martinho. Obras Selecionadas, vol.1, p. 332). Também Calvino não via diferença entre o bispo e os presbíteros, entendendo que este seria um representante daqueles que superintenderia toda uma comunidade de forma representativa e não autoritária (A Instituição da Religião Cristã [Institutas] IV, 4.2), e no seu comentário a Fp 1.1 entende que bispo é sinônimo de pastor e que ambos podem ser considerados pregadores da Palavra num sentido lato (LEITH John H. A Tradição Reformada, p. 272). O pensamento de Calvino se baseava na sua compreensão, de resto de muitos exegetas, de que o termo episkkopos, encontrado na literatura grega secular, designa uma função administrativa de superintendência, e desse modo o bispo é um superintendente de várias comunidades, embora, eclesiásticamente falando, esteja na mesma posição dos seus pares em grandeza e honra. É por isso que Leith defende a tese que Calvino aprova o episcopalismo, mas não o defende (p.271). Como conseqüência dessa falta de apoio do reformador francês, e também pela própria opção natural dos cristãos reformados da Escócia e Inglaterra, o episcopalismo não foi implantado como sistema de governo eclesiástico nem nas Ilhas Britânicas, nem na Europa Ocidental. Somente os reformados húngaros adotaram o sistema episcopal, e mesmo assim apenas no que tange á administração da igreja. Wesley também não admitia a idéia de um episcopado como um direito divino na Escritura entendendo, como Calvino, que os termos bispo e presbítero se aplicam à mesma função. (LELIÈVRE Mateo. João Wesley, sua vida e obra, p. 315). Contudo, admitiu a organização episcopal como forma de cimentar a união das sociedades, e nesse sentido reproduziu, pelos 25 Artigos de Religião das sociedades metodistas (1784) o sistema episcopal anglicano que permeou sua formação e ministério. 
No Brasil, além das confissões metodistas, também a igreja anglicana segue um governo episcopal enquanto as denominações luteranas (IECLB e IELB) embora organizadas em sínodos e contando com bispos entre suas congêneres na Alemanha, não se organizam aqui segundo essa forma de governo. A Assembléia de Deus ministério de Maudureira também possui um bispo (Manoel Ferreira), presidente da Convenção Nacional das Assembléias de Deus Ministério de Madureira (Conamad) mas essa designação é puramente honorífica pois foi concedida por um sínodo da Igreja Pentecostal de Moscou e apenas reconhecida em caráter extraordinário pela Conamad.