sexta-feira, 20 de maio de 2011

DICIONÁRIO TEOLÓGICO: Escolástica





Anselmo de Cantuária (1033 - 1109)



O período que vai do século XI ao XV corresponde à idade de ouro daEscolástica que depois da Patrística (séculos I a V ou VI) representa o mais vigoroso esforço especulativo da teologia medieval. Várias condições propiciaram a eclosão desse movimento teólogo que adentrou no âmago do catolicismo medieval produzindo repercussões que ainda são perceptíveis mesmo em tempos mais recentes: o movimento monástico que criou no interior dos mosteiros os elementos necessários para o armazenamento de várias coleções de livros recolhidos no Ocidente e, principalmente, no mundo grego, por meio dos bizantinos e dos árabes, que possibilitaram aos monges o contato com Platão e Aristóteles, além de permitir a formação de uma inteligência laboriosa e assiduamente dedicada à especulação; o surgimento das universidades que junto com os monastérios serão os centros de difusão do conhecimento do medievo; o fortalecimento do papado como instituição detentora do monopólio do Sagrado (Hilário Franco Júnior: O Feudalismo) e, por conseguinte, detentora do direito de produzir o saber teológico e amplificar suas especulações; e finalmente a preocupação percebida no seio do mundo teológico católico de buscar uma síntese que harmonizasse ao mesmo tempo as descobertas advindas da leitura dos filósofos gregos com a teologia cristã, preocupação que, aliás, não decorre apenas da escolástica, mas representava o último e mais sensacional esforço de uma série de tentativas iniciadas ainda com os neoplatônicos (século IV). Em suma, a Escolástica representa um esforço de síntese para a compreensão e prova da fé que abranja, dentro de um mesmo sistema, a Bíblia, o magistério dos Pais e a razão humana.
Cronologicamente a Escolástica inicia-se com as reformas educacionais de Carlos Magno (séc VIII) quando ocorre o renascimento cultural do Ocidente após o terremoto das invasões bárbaras e na qual eram dinamizados os estudos propedêuticos das chamadas Artes Liberais, em especial a Dialética e a Gramática. Nesse momento a vida cultural está ainda concentrada nos mosteiros (scholae Christi). A partir do século XI com o surgimento das escolas criadas adjacentes às catedrais, estabelece-se a diferenciação entre essas escolas e as dos mosteiros, sendo que nessas últimas a ênfase recai na leitura do texto bíblico combinado com os comentários dos Pais visando a meditação, oração e contemplação, ao passo que nos primeiros o ensino é orientado no sentido do questio ou do disputatio de acordo com esquemas racionais (Roberto Hoffmeister Pich, verbete Escolástica in Dicionário Teológico Brasileiro, p. 366). Ambos os movimentos atravessarão a Idade Média sendo possível encontrar pensadores escolásticos ligados quer à primeira (Pedro Lombardo), quer á segunda (Tomás de Aquino), por todo esse período.
Como escreve o teólogo protestante Wolfhart Pannenberg, as razões para a recepção de Aristóteles não devem ser procuradas tanto em alguma afinidade da teologia cristã com essa filosofia, como foi o caso dos padres da Igreja em relação ao platonismo, apesar de todas as divisões. Elas residem antes, no fato de que Aristóteles veio ao encontro da sede de saber lógica e empírica de sua época (PANNENBERG Wolfhart. Filosofia e Teologia, p. 73). Assim, o advento da Escolástica na Filosofia decorre da preocupação da compatibilidade entre a razão especulativa humana e a autoridade da tradição, isto é, o magistério da Igreja que corrobora a sua prática de fé e a capacidade do ser humano de se aperceber de forma dedutiva sobre o significado dessa mesma fé e os elementos que alimentam e condicionam tal experiência e sua compreensão pelo ser humano, além de refletir sobre o significado de tal compreensão para a sua própria vivência cristã. Contudo, a razão não pressupõe necessariamente objetividade, pois tomando por base a leitura dos artigos de fé dos pais ou mesmo dos credos, as diversas leituras dos comentaristas tendiam – como percebeu Lutero – divergirem entre si completamente. Contudo, a despeito dessa real possibilidade, a Escolástica enveredou por esse campo de especulação na medida em que, sobretudo com Pedro Lombardo (1100? – 1160?) há uma busca dessa síntese entre tradição e filosofia aristotélica, tendo por objetivo a fundamentação da fé cristã. Lombardo é o primeiro grande nome da Escolástica precisamente porque seu esforço de síntese é o que repercutirá de forma mais positiva ao longo dos séculos chegando, como lembra o papa Bento XVI, até a era moderna: Pedro recorreu a uma documentação muito extensa, constituída principalmente a partir do ensinamento dos grandes Padres latinos, especialmente Santo Agostinho, e aberto a contribuições de teólogos de seu tempo. (...) O grande mérito de Pedro Lombardo é o de haver organizado todo o material, que tinha recolhido e selecionado com cuidado, de forma sistemática e harmoniosa. Com efeito, uma das características da teologia é organizar de modo unificado e ordenado o patrimônio da fé. Ele distribui portanto as sentenças, isto é, fontes patrísticas sobre vários assuntos, em quatro livros. No primeiro livro se trata de Deus e do mistério da Trindade; no segundo, da obra da criação, do pecado e da graça; no terceiro, do Mistério da Encarnação e da obra da Redenção, com uma ampla exposição sobre as virtudes. O quarto livro é dedicado aos sacramentos e à realidade última, aquela da vida eterna, ou Novíssima. A visão global que ali se encontra inclui quase todas as verdades da fé católica. Este olhar sintético e apresentação clara, ordenada, esquemática e sempre coerente explica o extraordinário sucesso das Sentenças de Pedro Lombardo. Elas permitem um aprendizado seguro para os alunos, e um amplo espaço de aprofundamento aos professores e educadores que as utilizam. (http://www.derradeirasgracas.com/3.%20Papa%20Bento%20XVI/PAPA%20EXPLICA%20QUEM%20FOI%20PEDRO%20LOMBARDO.htm  acesso 20/05/11). De Alberto Magno a Lutero, várias gerações de teólogos aprofundarão a reflexão teológica do Mestre das Sentenças, usando o material do seu manual teológico para ampliar suas próprias reflexões ainda que chegando a conclusões inteiramente distintas daquelas concebidas pelo próprio Lombardo.


Tomás de Aquino (1225 - 1274)

Por outro lado, posto que mesmo a tradição não possibilite corroborar uma base sólida tanto para explicar como para demonstrar os postulados da fé cristã e, mais ainda, provar axiomas dogmáticos como a Trindade e mesmo a própria existência de Deus, torna-se necessário fundamentar pela razão os elementos que justifiquem a fé mediante uma investigação criteriosa e sob premissas estritamente lógicas. Além do mais, havia problemas metodológicos ainda mais complexos a serem resolvidos no âmago da própria filosofia aristotélica que, pelo menos em um primeiro momento, estavam fora de qualquer possibilidade de investigação teológica, como, por exemplo, a idéia de que em Deus (o Noûs supremo) existia apenas a capacidade de agir na condução dos processos mecânicos que governam o mundo, mas não que o mesmo Deus seja seu criador. A esse problema a Escolástica propôs a solução daquilo que Pannenberg descreveu como sendo a “teoria psicológica de Deus”, isto é, de que se Deus possui intelecto – pois é preciso dispor de intelecto para conceber as ações desse mesmo Deus na esfera humana, logo Deus também tem vontade, pois não é possível haver intelecto sem haver também uma vontade. Ora, para comandar o mundo, essa vontade deve ser inteiramente transcendente e assim, completamente divina, pois só se pode exercer experimentar tal plenitude quem está na transcendência, algo impossível para o ser humano que é limitado e finito. Desse modo, a partir de Anselmo, a concepção aristotélica do Noûs é totalmente divinizada, assim como suas idéias sobre a Ética, num esforço de incorporar todo o patrimônio filosófico do estagirita que apenas na Reforma terá um ponto final decisivo. Com a Escolástica a física aristotélica foi cristianizada pela teologia do medievo tanto para explicar a eternidade do mundo, como também para apoiar a tese de que esse mundo veio a existir em algum lugar no tempo mediante a vontade de Deus, ainda que não se possa estabelecer um momento em que esse mundo tenha surgido. Além disso, a criação do mundo é um processo que parte da vontade (irracional) para a razão (racional) e, como ensina Duns Scoto que ainda propõe que esse mundo também está sujeito a mudanças porque sua ordem não possui finitude (TILLICH Paul. História do Pensamento Cristão, p. 151 – 152).



O teólogo católico austríaco Karl Rahner (1904 - 1984): teologia influenciada pelo escolasticismo

A discussão sobre a prova da existência de Deus também representa um dos momentos capitais do escolasticismo. Anselmo afirma que pela razão é possível se provar a existência de Deus, pois até o descrente admite que exista algo superior que ultrapasse seu entendimento e que não é possível pensar ou conceber tal ser. Essa percepção de Deus como sendo algo incondicional que está fora do nosso intelecto, mas é percebido por ele constitui-se no centro nervoso desse argumento que se formula exclusivamente com base na especulação baseada no fundamento divino como o qual esse pensamento se relaciona (tomando por base a idéia de que esse fundamento esteja implícito na compreensão humana) já que Anselmo quer provar a existência de Deus no próprio intelecto (TILLICH Paul, ob cit, p. 170). Esse pensamento teônomo (Tillich) depois será criticado pesadamente pelos próprios escolásticos até o momento em que Tomás de Aquino formular a sua própria teoria da prova da existência de Deus (as chamadas cinco provas: movimento, causa, contingência, natureza e perfeição, esse último argumento baseado em Platão). Seja pela teonomia, seja pelas categorias de análise baseadas em relações de causa e efeito (como no caso do argumento de Tomás de Aquino) esse argumento será uma das bases de formulação da compreensão escolástica de Deus que representa uma das melhores sínteses entre a escolástica e a física aristotélica já que a teoria da prova de Deus em Tomás de Aquino se baseia na relação de causa, na qual uma provoca a ocorrência de outra e assim sucessivamente (embora não devamos esquecer que o quinto argumento acerca da perfectibilidade seja dependente de Platão). Só no final do século XV com o neoplatonismo de Pico della Mirandola e, principalmente, com a devastadora crítica que Lutero fará aos fundamentos da filosofia aristotélica e sua influência na teologia e na vida universitária do seu tempo, resgatando o monergismo agostiniano radical, é que o escolasticismo sofrerá um refluxo, ainda que não desapareça de todo, como prova o ecletismo das interpretações teológicas dos jesuítas que, no século XVII, representarão a ponta de lança na reação escolástica contra a Reforma, e ainda no século XX a Escolástica assumiria contornos de verdadeiro dogma institucional por conta da condenação do modernismo na encíclica Pascendi, de Pio X (1907), que influenciará a legislação canônica e a dogmática católica até o Concílio do Vaticano II. Contudo, também é possível encontrar especulações escolásticas mais originais na teologia católica de Karl Rahner, além do que, também no protestantismo moderno é possível encontrar um Paul Tillich, luterano, que não hesita em reconhecer influências escolásticas em sua obra, como, por exemplo, na relação entre revelação e razão que ele entende como sendo a realização plena da revelação divina (ob cit, p. 197).

Um comentário:

Carlos Alberto Silva disse...

GOSTEI MUITO DESTE BLOG,MUITO CLARO E OBJETIVO
OLHA QUERO COMUNICAR QUE POSTEI UM TEXTO DE VCS NO MEU BLOG, MAIS FIQUE TRANQUILO QUE POSTEI NA INTEGRA.
UM FORTE ABRAÇO.

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