sábado, 24 de dezembro de 2011

DICIONARIO TEOLÓGICO: Advento



No Catolicismo Romano a Missa do Galo marca o encerramento das celebrações do Advento (Missa do Galo celebrada na Basílica de S.Pedro em Roma, 24 de dezembro de 2010)

A celebração do advento (lat. Adventus = chegada) constituiu-se num dos eventos litúrgicos mais expressivos do calendário cristão de várias tradições, posto que a natureza da celebração – o nascimento de Jesus Cristo conforme comemorado nas diferentes liturgias – representa o ápice de toda a celebração litúrgica do ano, além de sintetizar as expectativas de renovo do ciclo da vida, bem como das promessas escatológicas quanto à segunda vinda de Cristo. Esse entendimento pode ser sentido nas diversas tradições cristãs. O Advento pode receber diferentes significados. Ele marca o início de um novo ano para a Igreja cristã, lembra o tempo em que o povo de Israel esperou pela vinda do Messias, anuncia a proximidade do Natal e o nascimento do Messias, anuncia a proximidade da vinda de Jesus, etc. (pastor Eldo Krügger, Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil, IECLB de Rio Claro SP. Disponível em http://www.luteranos.com.br/mensagem/2005_114.html  24/12/11) O advento do Reino de Deus é a derrota do reino de Satanás. “se é pelo espírito de Deus que eu expulso os demônios, então o Reino de Deus já chegou a vós” (Mateus 12.28) (...) é pela cruz de Cristo que o Reino de Deus será definitivamente estabelecido (Catecismo da Igreja Católica, 550). Com efeito, Deus ad-viene “vem até nós”, desce até nossa fragilidade e a toma em sua carne para poder curá-la em sua natureza divina. Deus está, pois conosco. Mais ainda, Deus está em nós. Emanuel é o nome de Deus que “desce até nós” e se faz visível, pobre e quase imperceptível para que nós não permaneçamos mais nesta crise perene que produz outros desajustes em todo âmbito da vida. Emanuel é o Deus que vem curar, libertar, desatar, pacificar, unir, perdoar, salvar, redimir. Emanuel é o Deus que ama e que se faz vitima por amor a sua Criação que sofre. Este Menino é o enviado que tornar-se-á o Mediador entre o Criador e os homens; Ele é o princípio do diálogo; é a promessa de salvação feita realidade; a ponte que nos leva a Deus; a boca de Deus; o perdão e a remissão encarnada; a saúde do gênero humano realizada na carne da própria condecendência divina; o autor e ator de nossa perfeição, paradigma, exemplo e axioma da vida reconstituída, elevada e unida à natureza divina. Este é o Emanuel, o Menino-Promessa; é o Deus conosco!

(Enciclica do Advento do arcebispo Tarasios da Arquidiocese de Buenos Aires, 24 de dezembro de 2010, disponível em http://www.ecclesia.com.br/arquidiocese/homilias_mensagens/2010_natividade. html 24/12/11.



Celebração do Advento na comunidade luterana de Itajaí (SC). Dezembro de 2011



Desse modo, o Advento se constitui numa celebração de renovação, mas também do anuncio do Reino de Deus que, por meio da vinda de Jesus Cristo, se torna uma realidade perene, mas também escatológica, posto que esse evento restabelece a paz e a cura interior em nossos corações, por meio de Sua natureza divina, mas também anunciando o juízo vindouro e o julgamento do maligno. Na verdade, a própria celebração do Advento é, em si mesma, uma celebração escatológica, pois quem celebra o nascimento de Cristo, estando consciente e seguro de seu retorno, tem esperança na realização da sua segunda vinda, o segundo advento, em que o Reino de Deus não será mais uma realidade escatológica, mas a própria expressão da realidade. Porque agora vemos como por espelho, em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei plenamente, como também sou plenamente conhecido (I Coríntios 13.12)

A celebração do Advento é feita durante um período de quatro semanas que marcam os diferentes estágios da entrada do Senhor no mundo. No caso dos católicos, a primeira das semanas do Advento está centralizada na vinda do Senhor ao final dos tempos. A liturgia nos convida a estar em vela, mantendo uma especial atitude de conversão. A segunda semana nos convida, por meio de João Batista a “preparar os caminhos do Senhor”; isso é, a manter uma atitude de permanente conversão. Jesus segue chamando-nos, pois a conversão é um caminho que se percorre durante toda a vida. A terceira semana preanuncia já a alegria messiânica, pois já está cada vez mais próximo o dia da vinda do Senhor. Finalmente, a quarta semana nos fala do advento do Filho de Deus ao mundo. Maria é a figura central, e sua espera é modelo e estímulo de nossa espera http://www.bispadobauru.org.br/nova/estudos.php?acao=ler&estudo_id=79  24/12/11. Obviamente a leitura litúrgica do protestantismo é bastante distinta, embora, em boa parte, análoga em seu significado conforme o comentário do pastor luterano Krügger: No primeiro domingo de Advento a Igreja anuncia que Deus se faz presente no mundo como Criador, aquele que criou o universo, que cria e mantém a vida. Cabe a cada um de nós perceber a criação e a vida como obra de Deus. O tempo de Advento nos convida a uma conversão ao Deus Criador, a termos mais amor e respeito para com a criação e a vida – dom de Deus. O segundo domingo de Advento anuncia que Deus se faz presente no mundo em Jesus. Jesus é o próprio Deus que se fez ser humano e habitou entre nós. Através de Jesus Deus se encarnou e interviu no mundo para salvar a sua criação e toda a humanidade. Advento nos convida a ver Deus em Jesus, a aceitar a salvação que Deus nos dá em Jesus. O terceiro domingo de Advento anuncia que Deus se faz presente no mundo pelo Espírito Santo. Após a ascensão de Jesus Deus enviou o Espírito Santo. É através do Espírito Santo que Deus se manifesta e age de forma redentora no mundo e em nossas vidas. É através do agir do Espírito Santo que Deus nos converte e salva, nos dá uma nova vida - eterna. O quarto Advento ainda não aconteceu – há de vir, como a própria palavra diz. Será o Advento da volta de Jesus ao mundo. Jesus virá para estabelecer de forma plena e definitiva o reino de Deus, virá para levar todos os filhos de Deus ao reino celestial. Ninguém sabe quando Jesus virá! A Bíblia adverte que devemos vigiar e estar permanentemente preparados para esse dia. Outra característica da celebração litúrgica do Advento são os símbolos – velas, coroas, anéis, ramas, bolas vermelhas – que representam elementos da fé cristã como a esperança, o Espírito Santo, etc, bem como os personagens bíblicos escolhidos pela sua importância em vincular a mensagem profética do Advento como Isaías – o profeta messiânico – João Batista – que veio anunciar o Reino dos Céus (Mateus 3.2) e José, o Pai do Menino Jesus, e Maria, a genitora, no caso da celebração do advento católico.

Os primeiros registros da celebração do Advento datam de c. 380 quando um sínodo em Saragoça (Espanha) estabeleceu a prática pela primeira vez. No século V chegaria à Gália (Perpétuo de Tours) e a Roma por conta das reformas do papa Gelásio. A partir do século VII, além da celebração do nascimento de Jesus, a litúrgica latina acrescentou também a celebração escatológica, além de estabelecer um período de celebração de cinco semanas nas igrejas italianas. Tal como no período da Quaresma, algumas igrejas no Ocidente (Gália, Espanha) praticavam a ascese (quaresma de S.Martinho) que ainda hoje é seguida nas igrejas orientais durante um período de cinco semanas até a véspera do Natal, com limitações de consumo a peixe, vinho e azeite, intercalados com períodos de jejum estrito. A Reforma preservou a celebração do advento pelo menos nas chamadas denominações históricas (luteranos, anglicanos e metodistas) não se verificando sua observância nas igrejas ligadas a tradições pentecostais.


Edson Douglas de Oliveira

Licenciado em História

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