O profeta Zacarias. Ícone do mosteiro de Kizhi, Rússia
O Benedictus, isto é, o cântico do sacerdote Zacarias (Lucas 1.68 – 79) é juntamente com o Magnificat (Lucas 1.46 – 55) e o Nunc Demitis (Lucas 2.29 – 32), um hino escatológico que remonta ao judaísmo da diáspora babilônica, o que explica a sua estrutura literária escatológica. (Benedictus Dominus Deus Israel; quia visitavit et fecit redemptionem plebi suae et erexit cornu salutis nobis, in domo David pueri sui, sicut locutus est per os sanctorum, qui a saeculo sunt, prophetarum eius (Vulgata) Bendito seja o Senhor Deus de Israel, Porque visitou e remiu o seu povo. E nos suscitou um libertador poderoso Na casa de Davi, seu servo, [Como anunciou desde o princípio pela boca dos seus santos profetas] (Tradução Brasileira, 1917). Bendito o Senhor Deus de Israel, porque visitou, e redimiu a seu povo. E nos levantou o corno da salvação na casa de Davi seu servo, como falou por boca de seus santos Profetas (Almeida RC). Diferentemente do Magnificat que exceto em um versículo (o 55) faz alusão à redenção da descendência de Abraão pelo nascimento de Cristo, o Benedictus evoca de maneira sistemática uma escatologia da redenção do povo de Israel, quanto à salvação da casa de Davi conforme os testemunhos dos profetas (1.69 – 70), anunciando o nascimento de Jesus como um vaticínio da libertação dos inimigos do povo de Deus (Lucas 1.73 – 75) e o de João Batista (vs 76 – 77) como sendo aquele que preparará os caminhos, evocando assim a profecia veterotestamentária (Isaías 40.3). Assim, enquanto para Maria o nascimento do Cristo anuncia a queda dos soberbos e dos poderosos, no cântico de Zacarias o mesmo evento é declarado como redenção do povo escravizado, como libertação em suma, tanto no sentido da libertação dos opressores humanos, isto é, de Roma(assim como desde os tempos antigos tem anunciado pela boca dos seus santos profetas; para nos livrar dos nossos inimigos e da mão de todos os que nos odeiam Lucas 1.70 – 71) como no escatológico, quando anuncia o ministério do Batista e a missão do Messias (E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque irás ante a face do Senhor, a preparar os seus caminhos; para dar ao seu povo conhecimento da salvação, na remissão dos seus pecados. Lucas 1.76 – 77). Jesus, portanto, é apresentado como libertador e remidor da raça, mas também como o profeta que anunciará a salvação e remirá os filhos de Deus pelos seus pecados, em suma, como um profeta messiânico, e o Batista será o arauto desse profeta.
Contudo, independentemente das estruturas temáticas, o Benedictus deve ser considerado um hino escatológico no sentido pleno da palavra, porque se enquadra perfeitamente no contexto da literatura apocalíptica judaica do período posterior ao regresso do cativeiro babilônico, e nesse sentido concordam tanto os liberais (VIELHAUER Phillip. História da Literatura Cristã Primitiva, p. 70), como os ortodoxos (HÖRSTER Gerhard. Introdução e Síntese do Novo Testamento, p. 41). Contudo, Vielhauer defende que, pelo menos do ponto de vista das estruturas literárias, o Magnificat e o Benedictus estão situados dentro de uma mesma tradição e ambiente vivencial, e que, desse modo, são reflexos das influências do movimento batista ou das comunidades judaicas no deserto (Qmram), o que não poderia acontecer com o Nunc Demitis, cuja classificação (se produto do ambiente judaico ou da pena do próprio Lucas), ele não se arriscar definit. Hörster também concorda que o Benedictus é um produto do judaísmo, vinculando-se a uma tradição exclusiva que não pode ser encontrada no interior da literatura devocional ou apocalíptica do helenismo, mas vincula o Nunc Demitis dentro da mesma tradição e contexto literário.
Nas tradições cristãs o Benedictus é celebrado na liturgia católica das horas, em geral nas manhãs (laudes matutinas), bem como nas matutinas luteranas, constando ainda no Livro de Oração Comum da Igreja Anglicana.
Edson Douglas de Oliveira
Licenciado em História.



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