quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

DICIONARIO TEOLÓGICO: Morte



A prática de retratar-se vivos ao lado de mortos surgiu com a própria invenção da fotografia. Uma grande quantidade de daguerreótipos datados de 1840 a 1860 atestam a popularidade da prática que é uma marca dos padrões éticos e morais da sociedade vitoriana quando a morte deixa de ser vista com terror e prelúdio do juizo final coletivo, como na Idade Média, e passa  fazer parte da vida social, adentrando nas casas e revelando consigo as novas nuanças da sociedade burguesa da Revolução Industrial (mãe com filho morto. Daguerreótipo c. 1850)



Pode-se dizer, em princípio, que a Bíblia coaduna em certo aspecto com as ciências médicas quando afirma que a morte é a negação da vida, isto é, o morto não possui nenhum dos estímulos necessários que corroborem que ele exista e sinta-se de fato entre os vivos. Pois, na morte, não há recordação de ti (Salmo 6.5); pois os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa alguma, nem tampouco tem dali em diante recompensa, porque a sua memória fica entregue ao esquecimento (Ecl 9.5. Tradução Brasileira). O morto, portanto, é um não-ser. Ele não representa nenhuma realidade efetiva e de fato, como descreve tão poderosamente Kierkegaard, ele não é ninguém. Ele não é ninguém no sentido de já não ser mais alguém nesse mundo, o que não impede na memória familiar que ele (ela) ainda sejam alguma coisa. Ele não é um objeto real e não pode existir possibilidade alguma de relação com aquele que já não é mais (KIERKEGAARD Soren, As Obras do Amor, p. 388 - 389), mas ainda pode ser alguma coisa na vida de alguém podendo, por exemplo, despertar admiração ou mesmo amor, ainda que não faça mais parte de qualquer realidade objetiva.

No AT a morte é tratada de duas formas. A primeira, como o fim da vida, o instante em que os homens retornam ao pó como diz Moisés no Salmo 90.3, e esse é o único ponto com o qual os exegetas concordam resolutamente. A segunda é no que tange a sua analogia com o pecado (Gn 3.19; Salmo 90.7) a morte, portanto, é o legado de Adão a todos os homens, pois por sua causa, todos são condenados a passar pelo vale da morte. Sobre o que se dá a partir da morte, em outras palavras, se existe uma vida após a morte, nem o texto bíblico e nem as interpretações que a ele se amparam oferecem perspectivas auspiciosas. A palavra sheol que as versões Almeida e Nova Tradução na Linguagem de Hoje traduzem ora como mundo dos mortos, ou até como inferno, pode nos oferecer uma perspectiva, bem remota pois o termo sheh-ole', sheh-ole' (Jó 14.13) transliterado como seol (ARA), xeol (Jerusalém) ou sheol (Tradução Brasileira) pode evocar tanto o mundo dos mortos como também as regiões subterrâneas da terra, podendo tanto dizer respeito ao mundo dos mortos como simplesmente ao subterrâneo. A Passagem de 1 Sm 28.8 - 11, no entanto, nos diz que a alma Samuel, homem probo e em permanente relação com Deus, foi chamada por invocação de uma necromante para conferenciar com Saul. Ora, sendo a necromancia totalmente condenada na Lei Mosaica e considerando a probidade e santidade do profeta que obedecera a Deus, torna-se difícil admitir que o espectro visto por Saul fossem de fato de Samuel chamado do fundo da terra (28.13), isto é, do sheol, ainda que o termo ali não apareça. Assim, é bem possível que essa entidade que subira da terra para ter com Saul fosse na verdade um demônio (lembrando que o sheol é um lugar de tormentos onde o próprio Deus não se faz presente), de modo que se justifica o temor que Jacó sente desse lugar. Por outro lado, Dn 12.2 afirma textualmente que no tempo do fim, muitos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna e outros para a vergonha e terror eterno, o que representa um claro testemunho de que na literatura profética veterotestamentária a morte é um estado transitório que precede à Parousia. Essa ressurreição representa a grande novidade do NT não somente do ponto de vista escatológico mas também do histórico na medida em que a ressurreição do próprio Cristo, vencendo a morte, torna-se um acontecimento da mais significativa importância, tornando-se o núcleo de todas as narrativas dos Evangelhos. A promessa de ressurreição para todos os homens e a redenção de todos aqueles que permaneceram em Cristo e foram por Ele rediminidos, representa o tema central da mensagem neotestamentária. Assim, no NT, a morte está claramente associada tanto à idéia da ressurreição quanto ao juizo final.



Velório de Martim Luther King, abril de 1968.


As visões da morte nas sociedades tem variado significativamente quer em relação ao tempo, quer no que tange às culturas. De um modo geral, a prática ocidental da preservação do corpo em lugar especialmente preparado para receber o cadáver, está também consubstanciado na literatura do AT quando vemos Abraão comprando um túmulo para sua esposa em Macpela (Gn 23) onde também foi sepultado Jacó (Gn 50.13) ao passo que em sociedade medievais, notadamente na Índia, a prática mais comum seja a da cremação do corpo. Quanto ao significado da morte, essa tem variado bastante. O Sócrates platônico no Fédon cria piamente na ressurreição e também na redenção dos justos e na danação dos perversos, mas na Antiguidade grega e romana, o culto aos mortos era uma instituição de tal forma poderosa que Fustel de Coulanges associa diretamente não apenas à formação da família patriarcal dessas sociedades mas também à propriedade já que todos os laços de família e vinculação dessa mesma á terra eram estabelecidas com base na posse da terra determinada pelo local de descanso dos antepassados. Isso se devia ao fato de que a alma tinha demanda de uma sepultura já que entre os antigos guardava-se a crença de que a alma se liga ao corpo defunto na sepultura. Os ancestrais são alimentados pelos repastos fúnebres e a prática de alimentar os mortos com esses costumes deixa vestígios indeléveis na literatura antiga: Então escuta bem. Quando me aproximei do túmulo de nosso pai, vi oferendas, vi leite em quantidade recém-derramado caindo sem parar da lápide no chão; e vi também ramos de flores inda frescas. Fiquei atônita, mas consegui conter-me (Eléctra, Sófocles). Heitor não quer ser privado de sepultura (Homero, Ilíada XXII) e, segundo Suetônio, o fantasma de Calígula teria atormentado os soldados já que seu corpo foi privado de sepultura (A Vida dos Doze Cesares. S.Paulo, Martim Claret 2004, p. 237). Toda essa preocupação tinha uma razão de ser: o morto, descido ao túmulo, torna-se ele mesmo deus e passa a ser o deus familiar do oikos grego e do lar romano, passa a lhe oferecer proteção em troca do culto dos vivos, e como lembra Coulanges (A Cidade Antiga, p. 21), os gregos vêem os mortos como deuses subterrâneos, e não só eles, mas também os latinos, os etruscos e até os povos da Índia. Na Idade Média, a fome, as guerras contínuas e progressivamente cada vez mais violentas, especialmente depois do século XIV com a introdução do canhão, as epidemais que causavam brutal queda demográfica e toda sorte de infortúnios de toda natureza, fizeram com que se criasse no coletivo a imagem da morte como inevitavelmente associada a sofrimentos sem conta no outro mundo de maneira ue se tornaram comuns iluminuras retratando os mortos como um exército horrendo que ia realizar sua colheita de cidade em cidade. Além disso, a própria idéia da morte tornou-se parte do coletivo, possivelmente pela própria situação criada com o renascimento das cidades que cresciam sem qualquer infra-estrutura. Esse pensamento não desapareceu com o Renascimento, mas a partir desse momento, com o otimismo racionalista dos séculos XVI ao XVIII foi sendo progressivamente deixado de lado até quase desaparecer as iconografias mortuárias. Estranhamente, é só no século XIX que se retoma a concepção da morte como fenômeno social ligado, porém, agora à instituições da família burguesa e vitoriana. A morte deixa de ser contemplada com terror e espanto e passa a fazer parte do imaginário do homem comum não mais como algo a que se chocar, mas como parte da vida familiar e, em última análise, despertar a compaixão e o senso ético de uma sociedade cada vez mais movida pela inclemência do capitalismo industrial, quando todas as formas de organização social e todos os referenciais éticos são completamente rompidos. Nesse sentido é interessante observar o discurso de Kierkegaard sobre o amor aos entes queridos mortos que é para o filósofo dinamarquês uma obra de amor das mais excelentes, porque não pode esperar receber alguma coisa, sendo por isso inteiramente desinteressado e desprendido. É uma forma de amor que não pode esperar retribuição e que por isso tem uma nobreza inata porque é uma obra inteiramente livre e inteiramente desinteressada. E se alguém é capaz de amar mesmo sabendo que não poderá exercer nenhum poder de coação e nem tampouco esperar qualquer dividendo disso, segundo Kierkegaard, esta é certamente a forma mais livre de amor que existe (Obras do Amor, p. 392). Esse pensamento torna-se ainda mais significativo na medida em que pensamos nas devastações causadas pelas guerras e violências gratuitas dos séculos XX e XXI que transformaram a morte em um espetáculo tão banal que já não causa mais repulsa, embora, igualmente, não cause comoção e não desperte amor de qualquer espécie.

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