3 º Ed. S.Paulo, Fonte Editorial, 2004
Karl Barth, capa da revista alemã Der Spiegel (23/12/1959)
O teólogo reformado suíço Karl Barth (1886 – 1968) escreveu certo número de trabalhos de teologia pastoral que terminaram eclipsados pelas suas obras dogmáticas mais relevantes como a Carta aos Romanos (1918) e a Dogmática Eclesial (1932 – 1968), passando, com isso, quase que despercebidas, entre as quais esse pequeno, mas expressivo estudo de homilética redigido já no inverno de sua carreira na Universidade da Basiléia (1961). Diferentemente de outros manuais de Homilética, a proposta de Barth não é fundamentar metodologicamente um esquema de pregação, mas discutir teologicamente o significado da pregação na vida da igreja e nas expectativas da comunidade. Portanto, apesar do que parece sugerir o título, esse estudo não se encaixa de forma alguma na categoria de manual homilético, o que, pó outro lado, não exime o leitor de poder enxergar em seu discurso algumas proposições que podem ser recebidas como recomendações para o bom exercício do ministério da pregação. Além disso, é preciso considerar que embora tenha passado quase toda sua vida intelectual dentro da universidade, primeiro em Göttingen (1922 – 1925) e a seguir em Bonn (1925 – 1935) de onde retorna para a Suíça para lecionar na Basiléia após perder sua cátedra e os direitos de lecionar nas universidades alemãs com o advento do nazismo (1935 – 1962), toda a reflexão teológica de Barth parte de premissas pastorais que evocam em sua essência, a sua própria experiência pastoral na comunidade de Safenwill (1911 – 1922) e que moldaram toda a sua formação teológica. O meio pastoral moldou e justificou grande parte de sua reflexão teológica tanto do ponto de vista dogmático – caso da Dogmática Eclesial – como do ponto de vista da pregação – caso do livro que agora examinaremos.
Barth Reconhece que seu trabalho não é uma obra de especialista, razão porque pede que seja analisado com a maior indulgência possível pelos mestres da matéria (p.11). Aqui, explica ele, trata-se, antes de tudo, de algumas normas e sugestões de ordem prática que me parecem, todavia, hoje, essenciais e dignas de serem meditadas, ou, ao menos, lidas com alguma atenção e discutidas. A ninguém recuso o direito de criticá-las (mesma página). O capítulo seguinte é quase profético, assumindo a figura de uma paráfrase livre de João 10 em que chama atenção para o falso profeta que é o pastor que agrada todo mundo. Seu dever é dar testemunho de Deus, mas ele não O vê e O prefere, porque vê muitas outras coisas. Segue seus pensamentos humanos, conserva-se interiormente calmo e seguro, evita habilmente tudo quanto o incomoda. Não espera senão poucas coisas ou mesmo nada da parte de Deus. (...) compraz-se em ser chamado pregador do Evangelho, condutor espiritual e serviço de Deus, mas só serve aos homens (p. 13). Ele não proclama a Deus em direção a uma nova vontade e a uma nova vida, mas deixa reinar o espírito do medo, do engano, de Mâmom, da violência – a muralha construída pelo povo (Ezequiel 13.10), o muro oscilante e manchado. Ele disfarça-o pintando com as cores suaves e consoladoras da religião para o contentamento de todo mundo (p. 14). É impossível não perceber a atualidade – e o tom terrivelmente profético – desse texto que não apenas evoca a baixa qualidade e o senso oportunístico da pregação cristã em nossos dias, mas também, o que é mais grave, a sua total insuficiência. Logo a (seguir, o teólogo da Basiléia define o que é a pregação como sendo a) a Palavra de Deus pronunciada por Ele mesmo por meio de alguém que fale em Seu nome, vocacionado por Deus e confirmado nessa vocação pela comunidade aonde ele vive e à qual ele serve. b) é produto da ordenança dada à igreja para servir à Palavra de Deus por meio desse mesmo homem a exercer esse ofício, que expõe, de forma concisa, o que o próprio Deus está falando. É desnecessário refletir sobre o que se passa na mente de uma pessoa, seja quem for, que é usada por Deus dessa forma porque, no final das contas, é Deus quem diz a primeira e a última palavra, pois é Ele que exerce nesse ofício sua plena autoridade. (p. 15). Se Deus é a Epifania e a Parousia, o primeiro e o segundo advento, o alfa e o ômega, toda a ação da pregação remonta a um circulo que vai e volta ao mesmo destino, porque Deus é a totalidade da revelação, o sujeito, o objeto e o termo médio da própria revelação (p. 17). Como não se pode provar materialmente a existência de Deus, isso nos obriga a usar a única prova que argumenta pela Sua existência que é aquela ancorada no próprio Deus, ou seja, sua própria Palavra, sem sentimentalismos ou exageros estéticos. Nesse sentido também se estabelece o ofício do pregador que é fundamentalmente – e somente – anunciar o Reino de Deus. Deus, portanto, é o Senhor da pregação e o que se fizer fora da Sua vontade será tido por crime contra essa mesma vontade, sendo igualmente perigoso escolhermos textos bíblicos conforme a nossa vontade, apenas com vistas a tecer considerações que sejam eivadas pelo nosso pensamento (p. 19). Por isso a pregação deve se ajustar, ou melhor, se conformar, a própria revelação, torna-se querigmática e se conforma em si mesma. (p. 20). A pregação deve anunciar a revelação de Deus como Epifania aos homens, bem como a revelação, a redenção que vem ao nosso encontro (p.21).
O metodismo representou uma revolução na arte da pregação a partir do momento em que John Wesley levou seu ministério para outros lugares alem dos pulpitos das igrejas, como ruas, cemitérios e praças (Wesley pregando. Croquis inglês do século XVIII)
Todo o enredo da pregação é realizado dentro da Igreja que é o local onde se desenrola o evento da proclamação. Não é evento humano, mas proclamação de Deus que se insere como um evento particular na História e não um fato que se possa reproduzir em todo o tempo e em todo lugar. Não dependem dos eventos humanos para serem proclamadas, nem da filosofia humana como fator de inspiração, mas unicamente da inserção desse evento que é a pregação da Palavra de Deus na história humana. Desta forma, nossa tarefa resume-se no seguinte: refletir sobre o acontecimento único, dom da graça de Deus. Se reconhecermos nossa impossibilidade em fazermos algo, então constatamos que não podemos escolher, por razões filosóficas, políticas ou estéticas, o terreno da pregação. Não há mais que uma imposição pela força das coisas que é a igreja (p.24). Essa afirmação de Barth da impossibilidade do ser humano de apreender a revelação pelas suas capacidades intelectuais e filosóficas inerentes parece ser dirigida à filosofia existencialista, à impraticabilidade de se conseguir trazer o discurso cristão exclusivamente por meio de premissas tiradas da especulação filosófica, e condicionando não apenas a cosmovisão bíblica, mas até mesmo a pregação e o dogma a esse sistema.
Barth também chama atenção para o papel da pregação na igreja protestante, sob o aspecto de que, com a Reforma, a pregação, e não mais a ministração do sacramento como no catolicismo, passaram a assumir a centralidade do culto. Contudo, essa centralidade despojou o sacramento de toda a sua importância e a finalidade da pregação passa de maneira indelével pela proclamação do sacramento. Barth chega a propor uma celebração na qual o batismo precederia à pregação, vindo a ceia logo após o culto, de maneira que toda a estrutura sacramental – liturgia do sacramento, mais a Palavra – fossem preservadas conforme o pensamento original de Lutero e Calvino (p. 26). De fato, na Missa Alemã (1526), o pensamento do reformador segue essa lógica bem de perto: entre os cristãos tudo no culto deve acontecer em função da Palavra e do Sacramento. [1] Em Lutero a liturgia é determinada pela Palavra, mas não excluída por ela, uma não exclui a outra. Celebrações como a Quaresma a Semana da Paixão podem ser preservadas para que a leitura dos Evangelhos seja também mantida. Restituir o papel do Sacramento é fundamental para que o culto protestante alcance toda a essência das concepções litúrgicas imaginadas pelos antigos nos dias da Reforma e Barth está bem dentro dessa tradição venerável ao propor isso (p.27)
Qual o objetivo final da pregação? O pensamento de Barth a esse respeito concebe uma premissa bem pouco idealizada, principalmente quando comparada com o fundamentalismo eu enfatiza tanto o conversionismo por si e em si mesmo, a partir da ética da pregação. Essa visão simplista do ministério da pregação não perpassa a teologia pastoral barthiana:
[1] LUTERO Martinho, OS VII [Missa Alemã e Ordem no Culto, 1526], p. 205.
Edson Douglas de Oliveira
Licenciado em História
Quando nos propomos a educar os homens, podemos sonhar em seguir um plano e fixarmo-nos a uma meta. Esta seria a tarefa do pregador, se a igreja se propusesse a educar a humanidade e fazer verdadeiros homens. Porém, não pode ser assim conhecendo qual é a função própria da igreja. A igreja não é uma instituição a serviço do progresso do mundo. A igreja, com sua pregação, não é uma ambulância nos campos de batalha da vida. Por outro lado, não deve tampouco buscar a instauração de uma comunidade ideal das almas, corações ou espíritos. Todas estas coisas tem seu valor certamente devemos nos preocupar com elas. Essas podem entrar como acessório na pregação. Por demais, tudo isto tem forçosamente um papel como na vida ordinária. O pregador, como todos os cristãos, vive no mundo e não pode subtrair-se a estas coisas. Porém, a partir do momento em que a pregação toma isso como meta, não tem mais razão de ser (...) a Igreja não pode fazer mais do que reconhecer isto: foi-lhe dada uma ordem que deve ser cumprida. A existência da igreja justifica-se somente se ela compreender que está fundamentada numa chamada. Por conseguinte não tem um plano – este plano pertence a Deus – seno uma tarefa a cumprir. A pregação, no desenvolvimento do culto, deveria ser o anuncio de sua obediência a esta tarefa lhe foi confiada por Cristo. (p. 29 – 30).
O movimento avivalista que marcou a história das igrejas congregacionais da Nova Inglaterra no século XVIII misturou a dinâmica wesleyana de levar a pregação para fora da igreja com a ênfase no discurso soteriológico calvinista (o pregador inglês Jonathan Edwards, 1703 - 1758, que junto com George Withefield foi um dos maiores pregadores avivalistas da Nova Inglaterra do século XVIII)
A Igreja é chamada para pregar o Evangelho. Mesmo comportando uma única substância espiritual compartilhada com outros setores da vida de um país como advogavam Hegel e Wilhelm de Wette, ainda assim essa função seria especificamente função da Igreja, apenas a ela ligada. Contudo, se por um lado a confissão reflete as condições doutrinárias estabelecidas e cridas pela igreja, de maneira a se tornar uma resposta do homem ao que Deus disse, a pregação, por sua vez, é uma resposta da qual somos responsáveis (p.30). Além disso, a pregação tem outra missão bem distinta que é a edificação da própria igreja, processo esse que é indissociável pela graça de Deus. Contudo, uma questão implícita o próprio âmbito do ministério da pregação é colocada diretamente no âmbito de sua reflexão: diferente do ministério apostólico, o ministério da pregação não está formalmente estabelecido na Bíblia, e mesmo admitindo como muitos exegetas que a epístola aos Hebreus não seja uma carta, mas sim um sermão, ainda assim não temos evidenciado de maneira formal a existência desse ministério, de maneira que, para o teólogo suíço, o ministério da pregação surgiu logo depois do período subapostólico, vinculando-se à igreja como decorrência da sucessão apostólica, de maneira que a pregação da Palavra se vincula à igreja e esta dela se apossa por herança da própria pregação apostólica, sendo, na verdade, uma continuidade daquela, sendo que essa continuidade se dá por meio da transmissão do Evangelho, o tesouro da Igreja segundo Lutero (95 teses, tese 62). Ao assumir o ministério da pregação, pregando o Evangelho (Marcos 16.16), os pregadores do período subapostólico em diante tomaram para si uma responsabilidade de fomentar dentro da igreja a piedade que o Evangelho propõe e inspira, o que justifica tanto em Barth quanto em Lutero a afirmação de que o sentido da pregação é, em sua essência, revigorar a igreja mediante a leitura e proclamação dessa Palavra. Também isso não pode ser feito por qualquer pessoa, senão por quem é devidamente comissionado e vocacionado para tal. Assim, nota-se a especificidade da missão da pregação dentro daquilo que é chamado por Barth de a chamada de Deus, pois é Deus quem funda a igreja, cria o ministério, nomeia os ministros e exerce sua função e exerce a Sua vontade em todo o processo da vida eclesial e na proclamação do Evangelho (p. 34). Contudo, a igreja (ekklesia militants) é um organismo vivo que se insere na sociedade, e mais: que participa de um tempo histórico só deixando de fazer parte dele, conforme Büllinger destaca na Segunda Confissão Helvética, quando der baixa desse mundo e estiver exultando no céu, com o Senhor (Art. 17). Daí a necessidade de ela estar sendo sempre refundada, renovando-se sempre por meio da pregação da Palavra. Desta maneira, a igreja-instituição é uma espera da igreja; avança pelo caminho no qual se produz o acontecimento que cria a igreja (p. 35). Daí a necessidade de se reconhecer o pregador como mandatário de Deus, porque é comissionado para isso mediante o ministério da igreja, bem como a completa dependência desse mesmo pregador da vontade do Pai Celeste (p. 36 – 37). Além disso, a Bíblia, o material fundamental (na verdade único) do pregador é algo que deve ser respeitado, quando este se concentra exclusivamente em anunciar aquilo que essa Palavra proclama ainda que, ao fazê-lo, venha, eventualmente, utilizar-se de instrumentos científicos de análise exegética e um estudo de profundidade científico-filosófico para anunciar essa mesma Palavra. Por outro lado, também é inegável que a Bíblia é um livro permeado do começo ao fim de uma atualidade implícita, falando para cada geração aquilo que ela necessita ouvir. Nesse sentido, Barth está em perfeita concordância com Rudolf Bultmann, que num artigo escrito quase na mesma época (1958) assinala a contemporaneidade da pregação. Entretanto, nisso também reside um problema da pregação. Ela não pode ficar simplesmente recitando palavras da Escritura nem reproduzindo-as a título de explicação, mas precisa dar-lhes o caráter de atualidade, para que, em viva voz, sejam ouvidas aqui e agora como se tivessem surgido naquele momento. [2]. Por outro lado, o pregador deve preparar-se não apenas intelectualmente, mas também espiritualmente, e atentar para o fato de que a Bíblia fala em sua totalidade, isto é, em Barth, que ela pode transmitir a Palavra em qualquer texto onde se possa apreender, segundo o seu conceito de inspiração da Escritura, aquilo que a Palavra pode e precisa falar. E lembra que Lutero, tal como Bultmann, sempre foi muito judicioso e excessivamente seletivo na pesquisa e preparação dos textos bíblicos para a pregação [3]. Daí a necessidade de se respeitar a Escritura (p.40), não porque seja a Palavra de Deus ipsis litris, o que ele não aceita, mas que ela se torna na medida em que assim é captada pelo pregador ou pelo ouvinte ou por ambos. Não é suficiente dizer ou haver lido em qualquer lugar que a Bíblia é a Palavra de Deus para saber o que significa. Na verdade não é no sentido em que se diz, por exemplo, que o código civil contém o pensamento do Estado. Para compreender o que se sucede de verdade, seria necessário dizer que a Bíblia se torna a Palavra de Deus. E quando chega a sê-lo, para nós o é (p. 42).
No século XX a pregação se torna um evento de massa a partir da sua vinculação pelo rádio e, depois, pela TV. (O televangelista Billy Graham [n.1918] em foto de 1966).
A Igreja é portadora da Palavra, o que significa ser portadora tanto do Antigo quanto do Novo Testamento e, igualmente, aceitar a canonicidade de ambos (Confissão Belga, art. 4). Nesse sentido, a Igreja, que se apresenta como sucessora da Sinagoga recebe também o Antigo Testamento que com o Novo, se relaciona íntima e profundamente. Como diz o art 6º da Confissão Metodista: O Antigo Testamento não está em contradição com o Novo, pois tanto no Antigo como no Novo Testamento a vida eterna é oferecida à humanidade por Cristo, que é o único mediador entre Deus e o homem, sendo Ele mesmo Deus e Homem; portanto, não se deve dar ouvidos àqueles que dizem que os patriarcas tinham em vista somente promessas transitórias. Embora a lei dada por Deus a Moisés, quanto às cerimônias e ritos, não se aplique aos cristãos, nem tão pouco os seus preceitos civis devam ser necessariamente aceites por qualquer governo, nenhum cristão está isento de obedecer aos mandamentos chamados morais. Levando em conta esse vínculo, Karl Barth recomenda que se preste bastante atenção à mensagem do AT, prezando com bastante cuidado a exegese histórica dessa parte da Bíblia onde, a despeito de sua especificidade judaica, não deixará também de falar e proclamar o Cristo (p. 43 – 44). No que tange ao ministério da pregação, o pregador que está inserido na vida da comunidade, e ambos na História precisam perceber o que essa comunidade anseia o que espera ouvir e de que modo a pregação da Palavra que ele recebe de Deus por meio de sua experiência diária e filtrada em sua vida, e adaptar, desse modo, essa percepção da vontade de Deus aos anseios da comunidade, tanto porque isso é necessário e vital para a igreja, se lembrarmos que a igreja precisa da pregação e que o pregador precisa transmitir essa pregação, mas essa transmissão precisa ser feita considerando o espaço em que se vive e em que transcorre a ação da existência e as respostas de Deus para os problemas demandados por essa existência, mas também precisa considerar que o pregador tem de perceber o espaço histórico em que vive e experimenta sua fé, de modo a não ficar bitolado da realidade e se isolar dela (p. 47 – 48).
Tendo passado por todas essas etapas e considerando-se que o pregador, conforme o mandato de Deus e as ordenanças eclesiásticas esteja espiritual e intelectualmente preparado para exercer o seu ofício, passamos então para a etapa mais importante de todo o processo, a preparação da pregação. Barth não recomenda a escolha de passagens curtas da Escritura até poder se tornar de fato uma expressão bíblica da vontade do alto (p. 50). Também recomenda a leitura por meio da preparação de uma lista que pode ser baseada no ano eclesiástico de maneira que o pregador possa dispor de certo número de textos que se encaixem em eventos específicos como Páscoa, Corphus Christi, Advento, etc, e assim não se dispersar na escolha dos temas e enfocar, ainda o evento ao qual o texto evoca tanto pela liturgia quanto pelo próprio texto que fala (mesma página) além de procurar não fugir jamais do sentido explicitado no texto e, sobretudo, evitar alegorias de qualquer espécie (idem). De preferência, sugere-se que o pregador não tome por base a sua própria tradução e que, diante da exposição das línguas originais, comece a dissecar a perícope, destacando as passagens mais importantes, aquelas que serão destacadas ao longo da pregação. Só depois disso, conforme a recomendação de Barth, é que se passa a analisar os comentários bíblicos, sem jamais deixar de perceber que eles são produtos de um momento histórico bem definido, e que, por conseguinte, vão ressaltar as peculiaridades desse momento e que terão, sem dúvida, reflexos na leitura do comentarista, porque de fato, embora tratando muitas vezes da análise de um mesmo texto bíblico isso não significa que os comentaristas apresentarão idéias convergentes sobre a passagem analisada, sendo na verdade mais provável que ocorra o contrário; os comentários de Lutero e Calvino possuem concepções teológicas que são fruto de mentalidades e temperamentos determinados por fatores nacionais e culturais e visão de mundo e que devem impreterivelmente ser levadas em consideração, isso sem contar que nem todos os comentários bíblicos têm características pneumático-existenciais ou seguem exegese tipológica como os de Lutero, podendo o pregador de nossos dias se dispor de comentários bíblicos de caráter mais científico como os de Charles Harold Dodd e Rudolf Bultmann, e que também não podem ser desprezados porque nos ajudam a compreender o processo de construção do texto bíblico, particularmente no Novo Testamento. Contudo, o que não se pode perder de vista é o enfoque na mensagem que o texto bíblico tem para os dias de hoje, porque embora sendo também um livro histórico, a Bíblia também é um livro para a contemporânea, um livro que fala (por ser pregado) nos nossos dias o que exigirá do pregador uma contextualização permanente. Este livro – ensina o magistério de Barth – nos fala de uma decisão realizada em outro tempo, decisão que tem também sua aplicação no momento presente. Por isso o abrimos hoje em dia (p. 54). Como Barth já adverte que o pregador deve evitar exageros de originalidade – afinal, sua missão é pregar o Evangelho tal como ele se apresenta – o teólogo sugere que o pregador não se desvia dos elementos dogmáticos da estrutura da pregação, porque eles são como bóias, postes indicadores que assinalam a boa direção (p.56). Acima de tudo, porém, Barth salienta a necessidade fundamental de o pregador se manter fiel ao ditame da Palavra, se quiser de fato cumprir a missão pela qual foi comissionado por Deus e pela Igreja, pelo mandamento eclesiástico. E repete mais uma vez a necessidade de contextualização bíblica, e, mais uma vez, coadunando com Bultmann; a Palavra deve ser confrontada com o homem de hoje. Quer agitar-lhe, atacar-lhe a fim de conduzi-lo dessa maneira à paz de Deus. Não é preciso deformar a Palavra ou evitá-la com preguiça e desobediência. O pregador deve ter coragem para pregar como se deve; uma coragem que não teme este ataque direto que está acima das conseqüências que possam resultar de sua obediência ao texto. Se tem essa coragem, então é a palavra de toda a Sagrada Escritura quem se encarrega de toda a responsabilidade (p. 63).
NOTAS:
[1] LUTERO Martinho, OS VII [Missa Alemã e Ordem no Culto, 1526], p. 205.
[2] BULTMANN Rudolf. Crer e Compreender [Verdades Universais e Proclamação Cristã. 1958], p. 372.
[3] Como lembra Timothy George (Teologia dos Reformadores, p. 85), Lutero tinha uma leitura bastante particular da Bíblia formando uma espécie de cânon dentro do cânon no seu pensamento teológico, onde Ester, Apocalipse e Tiago não eram tidos em grande apreço. É conhecido o manifesto desapreço do reformador por Tiago que não considerava escrito apostólico (OS VIII [Prefácio às Epístolas de S.Tiago e S.Judas, 1546], p. 153 – 154). Também o Apocalipse, pelo uso de linguagem simbólica que o tornavam quase inacessível à interpretação, não era muito prezado (ob cit, p. 155 – 156). Ainda segundo Lutero, o evangelho de João e as epístolas de Paulo (particularmente Romanos) e a primeira epístola de Pedro eram os documentos mais relevantes para a igreja. João descreve poucas obras de Cristo, mas muitas de suas pregações ao passo que os outros três evangelistas inversamente descrevem muitas de suas obras e poucas palavras suas. Por isso, o Evangelho segundo João é (...) o principal sendo que se lhe deve dar considerável preferência e dedicar-lhe respeito, e justificava esse argumento pela premissa da fé pela qual a pregação e não as obras eram de fato relevantes. (OS VIII [Prefácio ao Novo Testamento, 1522], p. 127, nota 247). Contudo, é preciso lembrar que mesmo tendo uma leitura seletiva da Bíblia, isso não impediu Lutero de usar alguns desses livros para fundamentar suas posições, como em Do Cativeiro Babilônico da Igreja (1520) quando usa Tiago para expor a sua rejeição da doutrina da extrema-unção. (OS II, p. 418 – 419). Paul Althaus ainda lembra que depois de 1530 o reformador omitiu suas opiniões sobre Tiago e Judas nas edições seguintes do seu Novo Testamento, embora as mantivesse para seu particular para não chocar a igreja (ALTHAUS Paul. A Teologia de Martinho Lutero, p. 100).
BIBLIOGRAFIA:
ATLHAUS Paul. A Teologia de Martinho Lutero. Canoas, ULBRA, 2008.
BULTMANN Rudolf. Crer e Compreender. Ensaios Selecionados. S.Leopoldo, Sinodal, 2001.
GEORGE Timothy. Teologia dos Reformadores. S.Paulo, Vida Nova, 1994.
LUTERO Martinho. Obras Selecionadas vol II. 2 ed. São Leopoldo, Comissão Interluterana de Literatura. 2000.
– vol VII. São Leopoldo, Comissão Interluterana de Literatura, 2000.
– vol VIII. São Leopoldo, Comissão Interluterana de Literatura, 2003
Edson Douglas de Oliveira
Licenciado em História






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