sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

ARTIGO ESPECIAL II: o Centenário das Assembléias de Deus - uma análise





Siglas:



ANC Assembléia Nacional Constituinte de 1987 – 1988. Os Anais da ANC estão disponíveis em http://www2.camara.gov.br/atividade-legislativa/legislacao/Constituicoes_Brasileiras/constituicao-cidada/publicacoes/anais-da-assembleia-nacional-constituinte  clicar em versão para download em pdf.

CGADB – Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil

CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

CPAD – Casa Publicadora das Assembléias de Deus

DIAP – Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar

LBA – Legião Brasileira de Assistência (extinta em 1990)

UDR – União Democrática Ruralista



Sem dúvida que o maior evento de 2011 do ponto de vista religioso-evangélico foi o centenário das Assembléias de Deus no Brasil. O evento, que na verdade começou a ser planejado desde 2009, consagrou todo um ano de comemorações que se deram nas diversas igrejas que formam o mundo pentecostal assembleiano e que culminaram nas celebrações de novembro último que, pelo menos em S.Paulo tiveram como palcos os estádios do Pacaembu, na capital e o de Barueri, na região metropolitana, tendo esse último evento contado com a presença do governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o prefeito Gilberto Kassab (PSD). O ex-governador do Estado, José Serra (PSDB), também estava presente.


E não poderia ser diferente, haja vista o caráter cada vez mais profundamente institucional e político que a denominação vem assumindo de um modo cada vez mais explícito nos últimos anos. Mas, pelo menos nesse momento, vamos passar ao largo desse factóde para procurarmos entender as razões que tornaram a denominação assembleiana não apenas a maior denominação pentecostal brasileira, mas também uma das mais poderosas, e porque, em vista de toda a gama e simbologia desse evento poderoso, a igreja não conseguiu realizar nenhuma convergência no sentido de atualizar o seu discurso em vista das mudanças sociais, políticas e culturais que o país – e nesse caso, a revelia deles – tem passado, deixando-se manietar por um discurso aparentemente conservador, mas que na verdade não reflete mais do que o senso de luta pelo poder que se verificou como ainda se verifica na denominação, conforme também identificado por elementos da própria seara assembleiana, entre os quais, mais recentemente, o doutor Gedeon Alencar, e desse modo assumindo uma postura não apenas bitolada e retrógrada, porém, o que é mais preocupante, cada vez mais dissociada com a realidade histórica e com o momento sócio-econômico vigente, momento esse com o qual, se tomarmos por base as posturas tomadas pelo presidente da CGADB, o pastor José Wellington Bezerra, parece a liderança dessa denominação pugnado por contra já de alguns anos.


Comemoração do centenário das ADs em Barueri SP (15/11/11)


Obviamente a História do Centenário apresentada da forma mais superficial possível pela propaganda institucional do evento, contemplando apenas as grandes lideranças com o destaque dos dois missionários suecos que desembarcaram em Belém do Pará na manhã do século XX para iniciarem aqui a obra pentecostal, não oferece condições de análise que, por meio da própria documentação disponibilizada a partir do evento nos possibilite entender porque um oceano separa a pequena igreja constituída no Pará no começo do século XX da verdadeira organização político-institucional que se transformou as ADs em nossos dias. Contudo, mesmo essa documentação pode falar muita coisa, se, por um momento, esquecermos o caráter mítico que se formou em torno dos dois protagonistas transformados em mártires do sacrifício e da abnegação cristã, mesmo que apenas mui tardiamente sendo assim reconhecidos, fato óbvio e que não pode ser negado especialmente no caso de Daniel Berg, que depois de anos de labor ingente no Brasil e em Portugal padecia das maiores privações quando a denominação que ajudou a fundar se encontrava às portas do seu cinqüentenário: até 1960, relata o historiador das ADs Isael de Araujo, Berg recebeu diretamente de Deus a cura das suas enfermidades mediante a oração da fé. Mas a respeito de sãs condições de vida nos seus anos finais, pode-se inferir que não tinha o amparo que merecia. De fato, Adrião Nobre, sabedor da situação em que o pioneiro se encontrava, escreveu indignado na revista A Seara (novembro-dezembro de 1957): o irmão Berg reside em S.Paulo (cidade de Sto André) não sei como ele vive ultimamente. Tive, porém, notícias desagradáveis com relação à sua condição de vida. Não tem, segundo soube, o descanso que merece, nem o conforto que lhe devemos proporcionar. Irmãos, não sejamos injustos, lembremos de auxiliar o tão amado pioneiro da obra pentecostal no Brasil (ARAUJO Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal, p. 124). E a indignação, como se vê, era justíssima. Porém, o caso do colaborador de Gunnar Vingreen não é o único, posto que também a esposa daquele missionário, Frida Vingreen, viveu seus últimos anos em condições bastante similares às de Berg, tendo morrido num asilo e sido enterrada como indigente segundo Isael Araujo (ob cit, p. 906), e até de que teria enlouquecido, conforme Gedeon Alencar (ALENCAR Gedeon. Assembléias de Deus, origem, implantação e militância, 1911 – 1946, p. 187).

Por que relembramos esses fatos sórdidos? Para lembrar que o processo de construção da AD como nós conhecemos, e a maneira como influenciou centenas de ministérios pentecostais, inclusive aquele no qual eu congrego, não passa de forma alguma pelo trabalho dos missionários suecos, pelo menos na fase de implantação da obra pentecostal no Brasil e por isso se constitui a obra que resultou nas ADs de nossos dias num desdobramento em si mesma daquele primeiro evento que foi a fundação da igreja, mas que com ela não se conecta em seus aspectos institucionais. É simplesmente uma conseqüência daquele evento, mas que não se liga a ele intrinsecamente. É por isso que não se pode falar também numa história das ADs como uma continuidade ininterrupta, mas numa sucessão de etapas que vão desaguar no Centenário e nos eventos do Pacaembu e Barueri onde se fez a cortesania do poder sem pejo algum. Do meu ponto de vista, considerando a própria historiografia oficial (Isael Araujo e Silas Daniel) e não oficial (Gedeon Alencar) das AD, as etapas seriam, sucessivamente, as seguintes:



As ADs representam hoje a maior expressão do pentecostalismo brasileiro, e seu crescimento abriu caminho para que a denominação criasse sesu próprios espaços de culto e comemoração dos eventos oficiais, como esse centro de convenções na cidade de Manaus.


A primeira fase é a de nascimento e formação do ministério (1911 – 1930) que é o período de instalação da igreja por meio do trabalho dos missionários suecos e da chegada de sucessivas levas de missionários desse país enviados pela Igreja Filadélfia de Estocolmo. Essa fase se encerra quando os obreiros nacionais começam a reivindicar uma maior parcela de poder na igreja que culminará com a “entrega” das igrejas pelos missionários suecos aos obreiros nacionais na primeira CGADB Brasil realizada em Natal (RN) em 1930, fato que é, no mínimo, de se estranhar, já que em várias regiões a presença missionária se prolongará ainda por muito tempo (Nels Nelson, por exemplo, permanece em Belém até 1950, Algot Svensson fica em Belo Horizonte até 1958, e em Porto Alegre, teremos o mais extremo dos exemplos, com Nels Taranger permanecendo à frente da AD gaucha até quase o final do século XX, saindo apenas em 1998).

Do ponto de vista intelectual, esses missionários em quase nada se distinguiam dos obreiros nacionais que eles formavam, pois vinham de um país exportador de mão-de-obra, com pouca ou nenhuma instrução formal, mesmo semineral, ocupando trabalhos braçais nos Estados Unidos, onde viviam como imigrantes com suas próprias igrejas e costumes, alheios à igreja territorial da pátria, isto é, a Igreja Luterana (vide a respeito a biografia de Nels Nelson no Dicionário do Movimento Pentecostal, p. 502 – 503 onde é relatada sua conversão do luteranismo ao pentecostalismo), e não só deles, mas também dos batistas, dos presbiterianos e dos metodistas, buscando, ao invés, alinharem-se com os movimentos de santidades, reproduzindo a ideologia alienada desses grupos no que tange à falta de compromisso com o social (BATISTA Saulo. Pentecostais e Neopentecostais na Política Brasileira, p. 169). Contudo, ainda assim, o modelo preconizado por esses missionários (e missionárias) estava muito avançado em relação ao que se fez depois da parte dos obreiros nacionais, isto é, de um modelo originalmente congregacional e com participação ativa do ministério feminino que nesse primeiro momento era amplamente aceito (vide Frida Vingreen), retrocedeu-se para o episcopalismo vitalício (Gedeon Alencar) e, por tabela, erradicou-se o ministério feminino. Aliás, a pesquisa que Gedeon Alencar fez para seu mestrado em Ciências da Religião na Universidade Metodista de S.Paulo (UMESP) que o conduziu à descoberta das atas das reuniões realizadas pelos missionários nos primeiros anos – e cuja existência foi negada por anos até mesmo dentro da CPAD confirmou algumas suspeitas sobre os desdobramentos posteriores do ministério assembleiano pós 1930. Falava-se que os missionários eram contra a idéia de uma denominação e que por isso não publicavam as atas, mas a descoberta das mesmas pelo pesquisador assembleiano demonstrou exatamente o contrário: não só registravam tudo, tudo mesmo, desde questões administrativas até problemas ditos doutrinários, como por exemplo, se podiam ou não batizar presbiterianos e batistas recebidos na igreja, como também se demonstrou por elas que o que os missionários suecos não aceitavam era uma organização nacional da igreja, uma igreja institucional, decerto pela experiência que eles mesmos vivenciaram num país onde a igreja territorial exercia domínio imponente. Daí porque não se pode falar em continuidade do trabalho desses missionários pelos obreiros nacionais, porque o que se deu foi na verdade a ruptura de uma forma de trabalho ministerial por outra, politicamente tão alienada e infensa às demandas nacionais quanto a primeira, mas, do ponto de vista eclesial, infinitamente mais retrógrada.



Logomarca do Centenário das ADs. A destacar o apelo à unidade dentro da denominação


A segunda fase é a da ascensão da liderança nacional (1911 – 1959). É nesse momento que se formam as grandes lideranças nacionais do assembleianismo brasileiro, em sua maior parte formadas nas igrejas do Note-Nordeste e que assim reproduzem também a dinâmica coronelística (ou como diz Gedeon Alencar, o ethos sueco-nordestino na qual o pastor exerce sua vontade onipotente e onisciente porque, uma vez ungido por Deus, sua autoridade é inconteste. Mas é um ethos sueco-nordestino, ou seja, concilia o domínio inconteste e patriarcal da autoridade representado pela liderança nacional, formada nesse momento maciçamente nessa região, com o senso pietista dos missionários suecos de que o chamado ministerial os colocava numa zona imune a qualquer forma de contestação e crítica, imunes pela Palavra. É nessa fase que se projetam as principais figuras do pastorado assembleiano nacional como o paraibano Cícero Canuto de Lima (1893 – 1981), cuja carreira ministerial é exemplificativa das mudanças que o próprio país atravessa nesse conturbado, mas importante período: convertido no Pará, para onde foi quando do ciclo da borracha, volta à Paraíba onde assume trabalhos no sertão e depois na capital do estado onde estava até aquele momento o missionário Simon Sjögren (as informações sobre esse missionário são completamente imprecisas. ARAUJO Isael, ob cit, p. 809 – 810). Em João Pessoa permanece até 1939 quando é designado para o Rio e depois, com a saída de mais um missionário, Bruno Skolimowski, que estava á frente da AD do Belenzinho, assume a igreja da capital paulista, no momento em que o surto industrial desloca para a cidade milhões de migrantes e de onde não sairá mais. O piauiense Alcebíades Pereira de Vasconcelos (1914 – 1988) é outro nome que se destaca nessa fase e cujo ministério também segue o mesmo padrão. Designado para o Rio onde substitui missionário sueco Nels Nelson (1958) e depois vai para Belém assumir a igreja-mãe onde permanece por sete anos (1961 – 1968) assumindo, por fim (1972), a igreja de Manaus, coincidindo esse momento com a época em que a cidade experimenta forte expansão urbana por causa da criação da Zona Franca de Manaus (1967) o que lhe vale a vice-presidência da CGADB (24ª CGADB, Recife, 1977) e a presidência efetiva dez anos mais tarde (29ª CGADB, Salvador, 1987).

É nesse processo que a AD assume a face denominacional – do ponto de vista das lideranças patrimoniais – que possui até hoje. A definição de Saulo Batista segue fielmente o pensamento de Gedeon Alencar acerca da práxis assembleiana: A Assembléia de Deus é uma rede de poderosos grupos regionais ou supraregionais, chamados ministérios que guardam muito da tradição nortista-nordestina das oligarquias. Seus membros, embora não fazendo parte dessas oligarquias, reproduziram a organização social autoritária dos antigos coronéis de barranco e de roça da política brasileira (ob cit, mesma página). Uma igreja de oprimidos, alienados da realidade que os oprimia e que, a certa altura, passou a ser governada pelos mesmos instrumentos de opressão que já estavam em vigor na sociedade, permeados por um discurso milenarista, triunfalista e messiânica.

Finalmente, a terceira fase é a de institucionalização da igreja (de 1959 em diante). É nesse momento que começa se verificar um fenômeno que, pelo menos o pentecostalismo sempre teve dificuldade tremenda de lidar: a relação com o Estado. A 16ª CGADB (Rio, 1959) marca essa convergência quando, pela primeira vez, um ministro de Estado vai participar desse evento, no caso, o marechal Henrique Teixeira Lott. Nota por demais animadora e honrosa foi a visita levada a efeito por sua excelência, o ministro de estado dos negócios da guerra, o marechal Henrique Duffles Teixeira Lott, no dia 20 de novembro quando se congratulou com todos os pastores e convencionais presentes, pelo magnífico espetáculo de fé cristã a que assistiu, merecedor dos mais vivos ecômios (DANIEL Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil, p. 320). Também o pastor Alcebíades, no seu período de pastorado no Pará, aproveitou os festejos do jubileu de ouro das AD no Pará em 1961, numa festividade que contou, entre outras presenças, com as do governador do Pará e do prefeito de Belém (BATISTA Saulo ob cit, p. 117 – 118), e ainda, para conseguir em pleno Regime Militar, junto à Superintendência para o Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM) uma subvenção pública para o abrigo de idosos Etelvina Bloise, seguindo-se depois uma subvenção pública feita pelo Ministério da Educação na época em que o coronel Jarbas Passarinho ocupava a pasta, para o Instituto Bíblico de Belém posteriormente declarado de utilidade pública ficando assim isento de impostos – mais precisamente, a subvenção foi de U$ 28,035.00 (BATISTA Saulo, ob cit, mesma página). Vale lembrar que por ser um instituto teológico voltado a determinada teologia confessional, o Instituto Bíblico de Belém jamais poderia receber aquela prebenda se os militares de fato respeitassem a letra da sua própria constituição (a de 1967) que determinava o impedimento de subvenções públicas para igrejas e cultos religiosos, abrindo apenas exceção para escolas, hospitais e creches (art 9, II), não se aplicando a letra do artigo a um instituto confessional de linha teológica e institucional claramente delineada.



A deputada federal Benedita da Silva (PT - RJ) deputada constituinte em 1987/88



E a esses eventos seguiram-se outros: No 2º Congresso Mundial das AD realizado em S.Paulo em 1997 as presenças assinaladas foram as do próprio presidente Fernando Henrique, agnóstico, do ministro da justiça Íris Rezende, evangélico, e do governador de S.Paulo Mário Covas (que era espírita) ao que se seguiu depois uma declaração de apoio dos evangélicos ali reunidos ao seu governo como assinala Silas Daniel ao reproduzir a Folha de S.Paulo do dia seguinte ao evento (ibidem, p. 606 – 607) Na 34º CGADB em S.Paulo (11 a 15 de janeiro de 1999) estiveram presentes Benedita da Silva, então vice-governadora do Rio e Benedito Domingos, vice-governador do DF, ambos membros das AD na época (ob cit, p. 609). E na convenção seguinte reunida em Maceió (27 – 31 de janeiro de 2003), o governador alagoano Ronaldo Lessa, o vice-governador do Rio Grande do Norte e o vice-prefeito de Maceió, além de parlamentares do bloco parlamentar evangélico (p. 646). Justificadíssima, portanto, a presença do governador de SP, acompanhado do ex, mais o prefeito da capital, no evento relativo ao centenário das ADs em novembro último.

É também nessa última fase que a liderança assembleiana nacional começa a incursionar mais a vontade pela seara política, lembrando os apoios oficiais que o presidente da CGADB, pastor José Wellington Bezerra, deu a Fernando Collor de Mello (1989) e Fernando Henrique Cardoso (1994). O envolvimento do presidente da CGADB foi bem explícito nessa fase como confirma suas declarações. Seu governo (de Collor) será marcado pela seriedade que o acompanha (Jornal do Brasil, 16/10/89 in BATISTA Saulo ob cit, p. 172). E em 1994 Silas Malafaia, ainda nessa época na AD e na CGADB acusaria Lula ora de fazer conluio para recatolizar o país, ora de ser simpatizante de Fidel Castro (MARIANO Ricardo Neopentecostais, p. 95). É interessante perceber que a denominação, pelo menos do ponto de vista de sua voz oficial, a CGADB, apoiou FHC mesmo sendo ele manifestamente agnóstico, não tendo uma única vez mencionado o nome de Deus em seus dois discursos de posse na presidência (1995 e 1999) e que ainda, quando senador constituinte (1987) como relator do regimento interno da ANC, defendeu a retirada da Bíblia da mesa principal de votações daquela Assembléia, projeto do deputado constituinte Antonio de Jesus (PMDB – GO) ligado às ADs. Conforme o também deputado federal constituinte Salatiel Carvalho (PFL – PE) e líder da Bancada Evangélica na ANC,



A primeira grande vitória que conseguimos foi obtida ainda na fase preliminar de elaboração do Regimento Interno, quando o Plenário aprovou por unanimidade a Emenda de autoria do Deputado Antônio de Jesus – PMDB-GO, da Assembléia de Deus, tornando legal a colocação da Bíblia Sagrada sobre a mesa principal, nas sessões da Constituinte. A emenda foi aprovada apesar de ter sido rejeitada pelo Relator, Fernando Henrique Cardoso, um ateu que se recusou até mesmo a comentar a emenda quando pedimos que ela fosse votada em destaque. A recompensa do Senador ateu veio logo na fase seguinte, quando ele disputou o principal cargo da Constituinte, o de Relator-Geral da Comissão de Sistematização. Figurando em todas as pesquisas da imprensa como Relator da Constituinte e vencedor da disputa, foi derrotado com margem de votos aproximada do nosso grupo que pertence ao PMDB e que não lhe deu apoio. (ANC. Ata da 101ª sessão, 15/07/1987, p. 302).



Como se pode ver pelos seus discursos de posse na presidência em 1995 e em 1999, FHC não mudou. Quem mudou foram as lideranças assembleianas que se adequaram ao seu discurso agnóstico e permeado de fino ceticismo para lhe referendarem dadivoso e oportuno apoio, demonstrando que não é a crença em Deus o fato determinante da escolha do candidato pela Convenção. Do mesmo modo o apoio a José Serra contra a defensora do aborto, Dilma Rousseff, não obstante esse mesmo político, então ministro da Saúde, ter autorizado o aborto no Sistema Único de Saúde, com dinheiro e equipamento público, conforme depois fartamente ventilado na mídia. À candidata que defenderia o aborto, contrapuseram um político que autorizou o aborto institucional nos hospitais e demais repartições conveniadas ao SUS sendo certamente o primeiro – e por isso o maior – defensor da prática.



O deputado federal constituinte (1987/88) Edésio Frias (PDT - RJ)


Disso se infere que as relações com o poder não trazem implícitas nada do compromisso ideológico subjacente, ainda que no discurso oficial as lideranças se apresentem e até reivindiquem-se conservadoras ou se apresentam institucionalmente como tais (isto é, como porta-vozes da CGADB e do próprio povo evangélico) mas, ao contrário, traz implícito o compromisso puramente fisiológico, conforme a vocação dessas lideranças que ainda seguem o padrão autocrático do coronelismo de barranco, denunciado por Gedeon Alencar e Saulo Batista. O que particulariza da maneira mais lastimável episódios como os da CEB, SUDEPE e a Máfia das Sanguessugas não é apenas o fato de serem escândalos que envolvem parlamentares evangélicos, e dos quais, boa parte, ligados às AD, mas sim o pormenor de que nesses eventos, se delineiam claramente suas posições que são, como se pode perceber num exame mais aprofundado, completamente fisiológicas, independentemente de quem esteja governando o Estado. O discurso da deputada federal Dirce Tutu Quadros, na ANC em 1988, é, nesse sentido, bastante pedagógico:



A Sr.ª DIRCE TUTU QUADROS (PSDB– SP):Sr. Presidente, Sras. e Srs. Constituintes, sempre ouvi dizer que, em nome da liberdade, se cometem grandes crimes contra ela, mas agora sou obrigada a reconhecer que, em nome de Deus, se comete o pecado e se corrompe o espírito. No momento em que o Jornal do Brasil, jornal insuspeito, pois que não figuro no rol de suas admirações políticas, presta um serviço à moralidade no trato da coisa pública, através de uma irrespondível e brilhante reportagem-denúncia do jornalista Teodomiro Braga, solicito a esta Presidência que transcreva nos Anais da Assembléia Nacional Constituinte o texto onde se desnuda o fisiologismo de uma tal "Confederação Evangélica Brasileira", entidade que congrega maus brasileiros que professam credos evangélicos. Independente que qualquer posição política ou definição pessoal, apreendi ainda em casa com meus pais o profundo respeito pela fé das outras pessoas. Acostumei-me a respeitar o credo dos judeus, dos umbandistas, dos kardecistas, dos católicos. Vi toda essa gente, no decorrer de minha vida, encontrar em suas religiões um reforço para enfrentar as dificuldades de nosso tempo. Portanto, que fique bem claro, não estou movendo perseguição religiosa a ninguém. Mas, pelo aspecto sórdido, deplorável, mesquinho e impatriótico desta tal "Confederação Evangélica Brasileira", pedi maiores informações na Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara dos Deputados. Nada tenho contra os evangélicos, mas durante toda a Constituinte a maioria deles votou contra os avanços sociais, contra o controle da natalidade, chegaram ao cúmulo de trabalhar com uma proposta que previa a garantia da vida "a partir do momento da concepção". Também, o Brasil deve debitar a esta bancada a imoralidade dos 5 anos de mandato para o atual Presidente da República. (ANC N022 Ata da 314ª sessão, 09/08/1988, p. 142)

 
E que razões levaram a deputada e o jornal carioca a essa explosão de indignação? Que o deputado Milton Barbosa (PMDB – BA) depois de indicar um confrade para a diretoria do antigo MOBRAL foi contemplado com uma dotação federal destinada à AD de Salvador da qual aquele deputado era um dos membros; que o deputado Matheus Iensen (PMDB – PR), também da AD, ganhou concessões de rádio e uma prebenda fiscal para sua gravadora por ter relatado e signatado a prorrogação do mandato do ex presidente Sarney; que o deputado Orlando Pacheco (PFL – SC) ganhou um computador e uma impressora de um banco; que o deputado Gidel Dantas (PDC – CE) fez lobby junto a uma multinacional francesa para que fosse vetada a proposta de compra de empresas multinacionais pelo governo federal, assim como também usou de lobismo junto ao então governador de Minas Gerais Newton Cardoso a fim de garantir a não criação do Estado do Triângulo e que (conforme o mesmo Jornal do Brasil de 07/01/88) teriam ocorrido irregularidades durante sua passagem pela direção da Superintendência de Desenvolvimento da Pesca (Sudepe) que levaram o governo Sarney a extinguir o órgão; que o deputado João de Deus (PMDB – RS) também ligado à AD gaúcha recebeu uma concessão de rádio em troca de votos pró-governo, etc. O comportamento da bancada evangélica na votação do projeto da Reforma Agrária é exemplificativo desse pragmatismo e seguiremos o artigo do Jornal do Brasil citado pela deputada constituinte:



O voto dos evangélicos no caso da reforma agrária surpreendeu, porque durante toda a fase das discussões Gidel Dantas havia dito que eles votariam pela desapropriação de terras que não cumprissem função social, e na hora da votação, no dia 10 de maio passado, o grupo votou em massa conforme a proposta patrocinada pela UDR. Os votos do bloco decidiram a votação, pois faltaram apenas 12 votos para que fosse mantida a íntegra do texto do relator Bernardo Cabral, que ampliava a possibilidade de desapropriação de terras para fins da reforma agrária. Dias antes, em uma das solenidades promovidas pela UDR em Brasília, o seu presidente, Ronaldo Caiado, bateu no bolso e falou, ao se referir aos constituintes evangélicos: "Estão aqui". (ANC ata da 314ª sessão, 09/08/1988, p. 145).



E não somente com relação à Reforma Agrária, já que, conforme a deputada Dirce Tutu Quadros, confirmado por um passeio pela documentação reunida pelo DIAP das bancadas que participaram dos trabalhos da ANC verifica-se que a bancada evangélica votou contra quase todos os direitos trabalhistas, desde o turno de seis horas até o aviso prévio proporcional, incluindo voto contrário à licença maternidade e paternidade e a participação dos trabalhadores em órgãos de seus interesses. Numa palavra, a atuação da Bancada Evangélica na ANC foi marcada por um viés incrivelmente retrógrado, e não direi totalmente por causa dos dissidentes. E o pior: além de retrógrado, eivado de inacreditável fisiologismo.

É bem verdade que a Bancada Evangélica não era constituída – como hoje – apenas de evangélicos das ADs, entre 33 deputados evangélicos que participaram da ANC (dos quais 26 perfilaram com o Centrão votando em bloco com suas propostas) havia batistas, presbiterianos, adventistas e congregacionalistas, e o próprio Jornal do Brasil ainda destaca que no momento mais feroz da aventura carreirista desse grupo, alguns deputados evangélicos comprometidos com as conquistas sociais, sete ao todo, se separaram desse grupo para não serem identificados entre eles pela imprensa ou pela sociedade civil organizada; mas também é importante verificar que desses 26 que votaram com o Centrão, 12 eram das ADs, ou seja, quase a metade da bancada. E também não é menos verdade que nem todos os parlamentares assembleianos tomaram parte em tais negociatas. A deputada Benedita da Silva, que na época membrava nessa denominação foi uma honrosa exceção (na verdade a única) da qual ela mesma tinha total consciência.



A SRA. BENEDITA DA SILVA (PT – RJ. Sem revisão da oradora): Sr.Presidente, Sras e Srs. Constituintes, outro seria o meu discurso não fora a edição de domingo de alguns jornais conhecidos que publicaram uma lista de vendilhões do templo na Constituinte. Neste momento, gostaria, de ressaltar que não houve da minha parte qualquer participação nas indulgências plenárias. Gostaria ainda de registrar que sempre me posicionei dentro da bancada do Partido dos Trabalhadores e não vou negar minha fé, principalmente neste momento em que está colocada uma contradição da interpretação do Evangelho comprometido e libertador, no qual a minha vida espiritual se tem pautado. Como membro da Assembléia de Deus e Constituinte do Partido dos Trabalhadores, quero dizer que a matéria é por demais extensa. Sabendo da dificuldade de muitas pessoas a lerem na íntegra e da importância que tem para o trabalho que estou exercendo a nível da Constituinte na Bancada do Partido dos Trabalhadores, gostaria de ressaltar que, na verdade, participei de alguns acordos nesta Casa. E dentre os acordos de que participei como integrante da Bancada do Partido dos Trabalhadores, não negando a minha fé enquanto evangélica da Assembléia de Deus, estão o turno de seis horas ao pessoal de rodízio, a jornada de quarenta horas semanais, direito de greve para todos, adicional de férias, reposição qüinqüenal dos direitos trabalhistas, soberania nacional, autonomia e liberdade sindical, proibição de demissão imotivada, aviso prévio proporcional, licença paternidade e maternidade, adicional de periculosidade e insalubridade para os trabalhos penosos; quatro anos de mandato para o Presidente Sarney, igualdade de direitos entre trabalhadores rurais e urbanos; reforma agrária e tantas outras conquistas que identificamos no texto como conquistas daqueles que estão comprometidos com a luta do cotidiano destes trabalhadores. Portanto, quero demonstrar que a Assembléia de Deus também tem nesta Casa representantes que defendem os direitos dos trabalhadores e não pode ser envolvida na sua totalidade a nível da versão que foi dada aos vendilhões do templo (ANC Ata da 314ª sessão, 09/08/1988, p. 141).



Encerramento das atividades da ANC, outubro de 1988




Outra questão que enseja um adendo: a “tal Confederação Evangélica Brasileira” que o deputado Gidel Dantas “criou” naquela Constituinte, entre outras coisas, para receber dotações de verbas de programas sociais via LBA, assim como a CNBB foi uma recriação de caráter puramente fisiológico de uma entidade fundada pelo reverendo presbiteriano Erasmo Braga em 1932 com o propósito de fazer frente aos esforços da Igreja Católica de se institucionalizar o Catolicismo Romano como religião oficial do Estado Brasileiro quando da convocação da Assembléia Constituinte de 1933, que deveria redigir a Constituição que seria promulgada no ano seguinte e, o mais importante: que se financiava sem recursos do Estado. Aliás, a simples comparação entre a primeira CEB influenciada pelo Evangelho Social norte-americano e a CEB dos deputados constituintes fisiológicos de 1987 mostra o tamanho da distância – temporal, teológica, cultural e, sobretudo, moral – que as separavam. A CEB de 1932 era ecumênica, a de 1987 era institucional com viés claramente denominacional, isto é, assembleiano, posto que essa denominação dela se beneficiou no período para a captação de recursos da LBA, a serviço de deputados e líderes daquela denominação, além de estar sob o controle direto de dois membros da AD (Gidel Dantas e depois o pastor José Wellington Bezerra que nessa época também já respondia pela CGADB). A CEB de 1932 tinha por bandeiras a educação cristã, o trabalho com os jovens e os ministérios, sobretudo o diaconal. A de 1987 apenas canalizava dinheiro federal por meio do tráfico de influência parlamentar. Daí a lamentação do deputado Edésio Frias, ligado à denominação batista, em ver o tão impoluto nome da CEB jogado à lama por conta de negociatas tão abjetas.



O SR. EDÉSIO FRIAS (PDT – RJ. Pronuncia o seguinte discurso): Sr. Presidente, Srs. Constituintes, quando o grande líder Presbiteriano Rev. Erasmo Braga fundou a CEB – Confederação Evangélica do Brasil, em 1932, na verdade não poderia prever que aquele organismo viesse, 56 anos após, servir de motivo para enlamear o Evangelho! O que é necessário ser dito em alto e bom som, entretanto, é que nem todos os Deputados que professam o Evangelho estão incluídos dentre aqueles que obtiveram favorecimentos governamentais intermediados pela referida Confederação Evangélica do Brasil (ibidem, p. 325).



E o mais inacreditável de tudo isso é que esse percentual de parlamentares envolvidos com corrupção se manteve vinte e três anos depois, em outro escândalo na qual a Bancada Evangélica em geral e a da AD em particular foi maciçamente envolvida: o da máfia das sanguessugas: aqui, metade da bancada assembleiana foi relacionada no escândalo, o que prova, de novo, que o modus operandi segue o mesmo E ainda mais preocupante: conforme a análise do sociólogo Alexandre Brasil Fonseca, em agosto de 2006, o que chama atenção no fato não é o detalhe de se ter deputados evangélicos envolvidos na corrupção, mas o fato de que boa parte deles acionou suas redes e estruturas eclesiásticas em sua atuação político-eleitoral, a qual, desde a Bancada Evangélica na constituinte de 1986, tem se tornado cada vez mais significativa no cenário eleitoral e partidário brasileiro. (BATISTA Saulo ob cit, p. 338).

Outra coisa que também une os dois escândalos: com raríssimas exceções, os deputados da Bancada Evangélica se ligam ao grupo do baixo clero, o segmento do Congresso Nacional formado pelos parlamentares pouco expressivos e mais diretamente vinculados (e dependentes) dos seus interesses paroquiais. Daí porque escândalos como o da CEB e o das sanguessugas envolvam tantos parlamentares evangélicos, porque representam, proporcionalmente, um volume de dinheiro bem menor que o dos grandes esquemas de corrupção e que, por conseguinte, envolvem estratégias de ação mais agressivas e contundentes e assim são superdimensionados pelo volume de pessoas envolvidos. Segundo uma assessora parlamentar entrevistada por Saulo Batista na época do escândalo das sanguessugas



A maioria desses deputados evangélicos não são ricos. Eles são pastores e quando chegam aqui no Congresso eles são cobrados. É igreja que quer ver construção de telhado, é igreja que quer aparelho de som, é igreja que quer que ele pague a excursão do grupo de jovens. Os membros que deram [o voto] começam a cobrar. É um jogo de troca, sujo, feio, fedido! E esses pastores não têm de onde tirar e precisam, às vezes, por mão nessas coisas aí dos sanguessugas (...) um deputado chegava para outro [e dizia] “cara, tem um homem ao que quer abençoar o seu mandato com recurso”. Eles usavam a palavra “abençoar”. E o cara do sanguessuga até usava esse discurso. “olha, eu vim aqui porque eu quero abençoar o senhor, lhe ajudando”. Era esse o discurso. Então, um passava para o outro, porque era uma coisa rápida, fácil, e que estava gerando dinheiro (BATISTA Saulo, ob cit, p. 345).



O resultado da “bênção” a assessora descreve da mesma forma: um compadrio, uma ação entre amigos que em tudo traz a lembrança do Homem Cordial de Sérgio Buarque de Holanda.



Chegou uma hora [quando] seu Darci [Vedoim, um dos financiadores do esquema] disse que ele não agüentava mais o assédio dos deputados (...) teve uma hora em que, especialmente no governo Lula, a liberação dos recursos começou a demorar muito. E esses parlamentares começaram a cobrar do seu Darci antecipado, como ele fazia no governo FHC. E o que acontece: ele não tinha dinheiro e os parlamentares [o pressionavam]. Ele queria parar. Por exemplo, ele queria parar um número de 40 parlamentares, 50. Mas sempre tinha um evangélico para apresentar um irmão para ele: “olha aqui o meu irmão, tem que abençoar o meu irmão, tem que por o meu irmão no esquema”. Infelizmente, foi dessa forma que tudo ocorreu (idem, p. 345).



Dessa descrição aprendemos duas coisas: primeiro, que o deputado não é representante da paróquia, mas de toda a sociedade, independentemente de ter sido eleito pelos católicos, pelos evangélicos, pelos kardecistas, pelos praticantes de cultos afros, por gays, etc. ele é representante da sociedade, mesmo sendo de fato representante de uma parte dela. Ao pensar de forma paroquial, esses parlamentares destroem o princípio federativo e submetem a alta política nacional aos interesses mesquinhos e medíocres de agremiações, sejam quais forem, e repetem indefinidamente o ciclo vicioso. Segundo: essa gente não está alicerçada por programas políticos já que seu antiesquerdismo abre exceções para FHC, Garotinho, Marina Silva e até ao próprio Lula, conforme a ocasião e o local. Eles não se ligam a projetos políticos, mas apenas ao poder, o que os torna ainda mais abomináveis porque podem e irão servir qualquer pessoa, independentemente de quais sejam as demandas nacionais. Daí a necessidade que os grupos que sustentam esse ciclo vicioso têm de se aproximar do sistema e dos grandes nomes, do Marechal Lott à FHC ou Lula. O projeto político do deputado escolhido seja pela CGADB ou pela convenção estadual é denominacional e ministerial, chegam à Brasília ou às assembléias estaduais como deputados da denominação, quase paroquiais e com isso os fundamentos do regime federativo são erodidos até a base. Vivem desse sistema e precisam dele para sua própria sobrevivência. É autofágico. É como um organismo vivo que se alimenta de suas próprias vísceras.

De novo a pergunta: pode ter mudado alguma coisa? Pouco provável haja vista que os padrões de utilização das estruturas eclesiais para levantar o programa da denominação permaneceram indenes na última eleição, como em 2006. Obviamente, pondera o Mensageiro da Paz (nº 1505, p.14) de outubro de 2010, ninguém está obrigado a votar nesses irmãos [os candidatos da denominação] trata-se apenas de uma indicação orientativa da liderança das Convenções regionais. Esses nomes são apresentados como orientação da liderança de suas respectivas convenções regionais, como pessoas de confiança delas e que, crê-se, estarão defendendo os valores esposados pelas Assembléias de Deus no Congresso Nacional e casas legislativas estaduais. Essa afirmação – estarão defendendo os valores esposados pelas Assembléias de Deus – revela-se, no entanto, imprecisa, porque mesmo incluindo temas que, num primeiro momento, parecem caros às lideranças do assembleianismo, como, por exemplo, a condenação ao aborto (mesmo tendo apoiado um candidato que autorizou o aborto em hospitais quando ministro da Saúde), também podem se generalizar em torno de quaisquer princípios que norteiem essa denominação, enveredando, inclusive, em direção do mais puro proselitismo. O texto também confirma o que foi dito por Saulo Batista e Alexandre Brasil Fonseca sobre o importante papel das convenções estaduais na escolha dos candidatos, geralmente ligados às próprias presidências dessas agremiações e o papel que exercem desde essa fase até sua atuação dos eleitos no legislativo.

Resumindo, as comemorações do Centenário da denominação assembleiana deveriam ser o momento de repensar valores, expurgarem-se das lideranças descompromissadas com o ministério e a sociedade civil e depois dessa purgagem assumirem, enfim, o papel que se espera que venha a assumir um papel progressista e construtivo no Brasil moderno, e que o país também anseia, porque uma sociedade justa se faz com a participação de todos os indivíduos em sua formulação. Mas ao invés, a repetição de métodos paroquiais de escolha de candidatos associado ao controle direto dos mesmos pelas suas paróquias e lideranças, mantém aberta a possibilidade da repetição de escândalos da mesma gravidade e abrangência que os da CEB, das Sanguessugas, ou até de maiores proporções E ainda para piorar, posturas preconceituosas como as evidenciadas já na atual legislatura referentes às patéticas declarações do deputado Marcos Feliciano, ou a tentativa de um juiz e pastor assembleiano de barrar o “casamento” gay no estado de Goiás, passando por cima de uma decisão da mais alta corte do país, o Supremo Tribunal Federal, ignorando por completo o caráter inclusivo da decisão do STF e se atendo apenas às minúcias forenses, desconsiderando que o caráter de inclusão do acórdão tratava de cidadãos no sentido pleno do termo, e, pior, travando no campo jurídico um debate ético que pede outro lugar para ser travado, tudo isso, em suma, vai contribuindo para deslocar cada vez mais o assembleianismo nacional para uma região periférica, e isso em decorrência de atitudes intolerantes ou retrógradas de uma denominação que quer se apresentar como herdeira do protestantismo histórico seja quanto às doutrinas, seja quanto ao discurso em favor das liberdades e garantias individuais (que nesse caso parece apenas valer para eles). Como numa copa do mundo, a festança jogou para debaixo do tapete a urgência no tratamento de demandas prementes. E assim, diante dessa recusa em encarar a modernidade e procurar compreendê-la em toda a sua extensão, o assembleianismo vai se afastando cada vez daquilo que foi idealizado pela Carta de Campinas (2010), isto é, uma igreja forte o bastante para exercer influência positiva e construtiva no cenário nacional. De fato a força existe, mas não para aquele nobre propósito.



Edson Douglas de Oliveira

Licenciado em História

1 comentários:

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