segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

DICIONARIO TEOLÓGICO: Kimbanguismo





Simon Kimbangu (1887 - 1951)


Embora a costa do Congo fosse conhecida dos europeus desde a expedição portuguesa de Diogo Cão no século XV (1482), foi só no século XIX, mais precisamente após a Conferência de Berlim (1885) que os interesses europeus assumiram de facto o controle da região quando se determinou que a Bélgica (na verdade o rei Leopoldo II) assumisse o controle daquele território africano. Com efeito, embora os portugueses reivindicassem o controle da região, o espírito que prevalesceu em Berlim foi de que os territórios africanos seriam partilhados conforme a presença das potências ocupantes, e de fato, desde a década de 1870 quando o jornalista inglês H. M. Stanley passou a defender os interesses do rei da Bélgica na região que a presença belga vinha ali se fortalecendo de tal modo que, na conferência de 1885, ingleses e alemães se aliaram com os belgas contra os portugueses que queriam “arredondar” seus domínios ligando o Atlântico (Angola) ao Pacífico (Moçambique) por meio da bacia congolesa. Contudo, mesmo após assumir o controle das terras, em um primeiro momento como propriedade pessoal do rei belga, a Bélgica ainda levaria tempo para consolidar seu domínio sobre o território, posto que a região de Katanga, de maioria árabe, resistiria aos assaltos das tropas belgas até o início do século XX. (História da África, vol VI, Brasília UNESCO, 2010, p. 832, 929). Por outro lado, mesmo declarando da forma mais taxativa o caráter humanitário e antiescravagista da sua reivindicação de controle sobre o Congo (ob cit, p. 929), não foi de fato o que se deu, de maneira que a escravidão ainda persistiu na região, pelo menos até a Primeira Guerra Mundial, sob o disfarce de sistema de “contrato de trabalho” e do qual resultaram milhares de mortes e a indignação geral das sociedades humanitárias européias (ob cit, vol VII, p. 383). A partir de então, o governo belga reproduziu seu sistema administrativo na região, por meio das repartições administrativas bem como do translado das organizações eclesiásticas católicas para darem suporte ideológico e religioso a esse esforço. Desse modo, tanto a administração como a Igreja Católica se reproduziram na estrutura da sociedade congolesa ainda que, de forma alguma isso implicasse num adesismo contumaz da população que, de todas as formas expressou sua resistência aos ocupantes. Do ponto de vista religioso, essa resistência foi capitaneada pelo movimento do kimbanguismo.

O movimento liderado pelo leigo Simon Kimbangu (1887 – 1951) foi uma das principais formas de resistência à ocupação belga e também uma das mais amplas e dinâmicas tentativas de contextualizar a mensagem cristã numa perspectiva africana. Do ponto de vista eclesial e dogmático, segundo os adeptos do kimbanguismo, se Deus quisera enviar uma mensagem à população negra, por que teria ele escolhido um mensageiro branco? Kimbangu pretendia reduzir o papel da cruz − “tão perigoso quanto um ídolo” − no cristianismo. A africanização do cristianismo em uma sociedade matrilinear, à qual se ligou Kimbangu, também propiciou o surgimento de uma hierarquia feminina no seio da Igreja, muito antes das reivindicações feministas ocidentais nas grandes Igrejas européias. (Ob cit, vol VIII, p. 139). Desse modo, a releitura, pela perspectiva africana, da cosmovisão cristã, preservando os valores e a essência matrilinear da sociedade congolesa no cerne do movimento, tornou o kimbanguismo não apenas popular, mas também muito atraente para os diversos grupos sociais da região. O movimento kimbanguista surgiu em 1921 quando Simon Kimbangu fundou a sua Église-de-Jésus‑Christ-sur-la-terre par le Prophete Simon Kimbangu – EJCSK (Igreja de Jesus Cristo sobre a Terra pelo Profeta Simon Kimbangu), no Congo Belga (atual Zaire). Sua recusa ao regime de trabalho obrigatório, bem como de pagar impostos levaram as autoridades belgas a encarcerarem-no por mais de trinta anos vindo a morrer na cadeia em 1951, mas essa repressão, longe de estiolar o movimento teve efeito inverso, fortalecendo-o ainda mais 1980, a primeira Igreja africana aceita no Conselho Ecumênico das Igrejas (CMI), na época com aproximadamente quatro milhões de seguidores.

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