A Abadia de Westminster, consagrada em 1065, e onde se reuniu a assembléia que sancionou a Confissão de Westminster (1643 - 1646)
A confissão de fé é uma declaração pertencente à Igreja constituída que expressa suas convicções mediante sua compreensão haurida do texto bíblico e conforme as especificidades de sua vivência dessa mesma fé em seu tempo histórico, sendo, de fato, produto de todo um conjunto de influências culturais e sociais que particularizam o entendimento que a igreja possui em relação á sua fé no momento histórico em que se encontra inserida. Nesse sentido, do ponto de vista metodológico, ela faz parte da Dogmática já que se reporta aos dogmas da igreja, tanto aqueles universalmente inseridos em todas as tradições e denominações (ex. Trindade, divindade de Cristo, etc) como aqueles que se emprestam a tradições específicas como a predestinação (calvinistas, presbiterianos e batistas particulares), o governo eclesiástico (congregacionalistas) ou à santificação (metodistas e pentecostais), mas de forma alguma pode e deve ser lida de maneira uniforme, posto que mesmo em uma única tradição como a calvinista, podem se perceber diferentes enfoques doutrinários acerca de temas como o adiaforismo (Segunda Confissão Helvética, 1562 – 1566), a dupla predestinação que recebe abordagens distintas como na Confissão Galicana (La Rochelle, 1559), na Confissão Belga (1561) e na Confissão puritana de Westminster (1647), e os dons espirituais que recebe abordagens distintas no Metodismo Histórico (25 Artigos da Igreja Metodista, 1784) e pentecostal (Estatuto e Regimento Interno da Igreja Metodista Wesleyana. Das Doutrinas), e que são decorrentes tanto de especificidades históricas quanto culturais e das diferenças de temperamento dos diversos povos. Assim, o entendimento da fé e de como essa fé é identificado na Escritura, pode variar no tempo e no espaço mesmo que o documento confessional se reporte a uma mesma tradição e reivindique caráter doutrinário.
A prática de se redigir declarações de fé é quase tão antiga quanto a Igreja. Os símbolos dos apóstolos (o Credo, século III), o símbolo niceno-constantinopolitano (século IV), e o credo de Atanásio (século IV) são documentos confessionais da igreja que ainda são aceitos nos dias de hoje, mesmo em tradições evangélicas. Na Idade Média os valdenses retomaram a prática (Confissão de 1120), mas foi no período da Reforma que essa literatura denominacional teve seu mais expressivo desenvolvimento, sobretudo entre as tradições calvinistas que aonde redigiu grande numero delas conforme especificidades eclesiais e culturais de cada povo, o que se percebe até nos títulos das mesmas (Confissão Galicana, Confissão Belga, Primeira e Segunda Confissão Helvética, Confissão Escocesa, etc) embora luteranos (Augsburgo, Artigos de Esmalcalde e a Fórmula de Concórdia) e anabatistas (Schleitheim) também tenham desenvolvido ampla literatura confessional nessa mesma época. Contudo, a Confissão de Fé não se prende a um momento histórico sendo possível encontrar textos confessionais até no século XX (Declaração de Barmen, Declaração de Chicago), mas tanto do ponto de vista histórico quanto do dogmático, podemos considerar que a Idade de Ouro da Literatura Confessional se situa entre os séculos XVI e XVII, entre a Confissão Anabatista de Schleitheim (1527) e a Confissão Congregacionalista de Savoy (1658). Contudo, as confissões de fé dos metodistas (os 25 Artigos de 1784) e dos batistas norte-americanos (Confissão de New Hampshire, 1833) trazem implícitas em seus textos toda a tradição dogmática e confessional da Reforma, embora estejam situados em um momento muito posterior.
De um modo geral, a confissão de fé, qualquer que seja, é dividida em seções mais ou menos uniformes e que podem ser encontradas em quaisquer tradições: na primeira parte, os autores reafirmam a inerrância e a canonicidade dos textos bíblicos, quer mencionando apenas os que são reconhecidos como tais pela igreja ou ainda mencionando os apócrifos também, mas numa seção distinta dos demais (Confissão Belga, 1561, os 39 Artigos de Religião da Igreja Anglicana, 1562 e a Segunda Confissão Helvética, 1562/66), podendo-se ainda citar outros documentos conciliares como o Credo Niceno (Fórmula de Concórdia, 1580). Segue-se logo depois um discurso em que a confissão se posiciona em relação a temas como o pecado, justificação, idolatria, santificação, conforme a ordem de importância do assunto, e em seguida, a descrição dos sacramentos (batismo e ceia), do governo eclesiástico e do governo secular e as relações estabelecidas entre os dois regimentos (Lutero), podendo ainda se constar um anexo ou uma introdução na qual a igreja (ou quem escreve em nome dela) esclarece sua posição em relação a determinados aspectos específicos do seu entendimento auferido da Bíblia, por exemplo, em relação ao governo eclesiástico (Confissão de Savoy, 1658), ou explicando as motivações da mesma (Confissão de Augsburgo, 1530; Artigos de Esmalcalde, 1537; Confissão Escocesa, 1560, Fórmula de Concórdia, 1580, Confissão de Westminster, etc). Também não podemos apresentar a literatura confessional, apesar de certa unidade temática que torna os documentos muito parecidos entre si, como sendo produto de uma única forma temática, pelo contrário: ao lado de textos dogmaticamente muito elaborados e esmiuçados como a Fórmula de Concórdia e a Confissão de Westminster, temos também trabalhos que apresentam extrema simplicidade redacional e dogmática como a Confissão de Schleitheim dos anabatistas suíços (1527) ou a de New Hampshire, dos batistas norte-americanos (1833), de maneira que, independentemente do tamanho da confissão de fé, sejam os trinta e três da Confissão de Westminster, os vinte e cinco da Confissão Metodista ou os dezoito da Confissão de New Hampshire, o que faz realmente a diferença é a sua capacidade de síntese e de posicionamento diante dos problemas dogmáticos lançados.
Phillip Melanchton (1497 - 1560) é um dos principais nomes da literatura confessional da Reforma, tendo redigio a Confissão de Augburgo (1530) e também a Apologia da mesma (1531). [Melanchthon retratado por Albrecht Dürer em 1526]
Outra distinção que precisamos fazer é quanto ao fato de que, embora sejam documentos eclesiais, nem todas as confissões foram redigidas dentro de um ordenamento institucional, quer dizer, conforme um acordo previamente acertado pela igreja, sendo que em algumas situações – caso da Confissão Belga e da Confissão de Schleitheim – o reconhecimento pelas igrejas constituídas se deu bem mais tarde. Há confissões que assumem caráter estritamente pessoal (caso da Confissão de Lutero de 1528, da Confissão dos Mártires Calvinistas na Guanabara, de 1560, da Confissão Belga e da Segunda Confissão Helvética), outras que representam apenas o compromisso de fé de uma única igreja (os Artigos da Igreja de Leyden, 1617), ou do grupo de igrejas de uma região (Confissão Tetrapolitana de 1528), podendo ainda ocorrer de uma confissão isolada terminar sendo aceita por um grupo mais amplo como foi a Confissão Belga, reconhecida pelos calvinistas dos Países Baixos ou a de New Hampshire, aceita pelos batistas norte-americanos e do ultramar (Brasil). Também pode acontecer de a confissão falar genericamente em nome da igreja, embora sem a distingui-la confessionalmente como as declarações de Barmen (1934) e de Chicago (1978) sendo que nesses casos não se situam exatamente como confissões de cunho dogmático, mas expressões de fé em face do momento histórico em que a igreja se situa e que dela exigem um posicionamento contundente. Contudo, grande parte dessas confissões de fé é, em geral, resultado de esforços realizados nos dois níveis, o secular e o eclesial, em vista de uma declaração de fé que seja ao mesmo tempo, a expressão da igreja estabelecida, mas também do Estado que a reconhece e a incorpora, sendo, portanto, o testemunho do seu tempo na qual a relação Estado-Igreja, ainda que distinta em si, sobretudo após a Reforma, reflete, por outro lado, a preocupação de ambos com o caráter não apenas eclesial mas também institucional da igreja territorial sendo essa não apenas o reflexo da fé da comunidade, mas da própria identidade nacional da mesma, sendo esses os casos das declarações de fé redigidas pelas igrejas magisteriais como a Tetrapolitana (redigida pelos governos das cidades de Estrasburgo, Constança, Memmingen e Lindau), Augsburgo (reconhecida pelos príncipes protestantes do Norte e do Centro da Alemanha), a Fórmula da Concórdia (reconhecida pela maioria dos principados protestantes alemães), a Escocesa (sancionada pelo parlamento da Escócia), a Anglicana e a de Westminster (sancionadas ambas pelo Parlamento inglês embora, efetivamente, apenas a primeira fosse reconhecida pela monarquia), o que as tornam não apenas documentos da igreja, mas também, documentos de Estado, uma vez que refletem a identidade eclesial da Igreja Territorial, a igreja reconhecida pelo Estado.
Embora em sua maior parte sejam documentos institucionais, boa parte da literatura confessional foi haurida de uma única autoria, como a Confissão Anabatista de Schleitheim, creditada a Michael Settler, a Confissão de Augsburgo a Phillip Melanchthon (que também redigiu a sua Apologia, em 1531), os Artigos de Esmalcalde a Lutero, a Confissão Belga a Guido de Brès, a Segunda Confissão Helvética, de Heinrich Büllinger, os 25 Artigos à John Wesley, a Confissão de New Hampshire redigida ao pastor John Newton Brown (1803 – 1868) e a Declaração de Barmen a Karl Barth. Isso, todavia, não quer dizer que esses autores escreveram essas confissões como um produto intelectual particular, mas como participantes da igreja estabelecida na terra e que, por representarem a parcela que reflete sobre a dimensão existencial e histórica dessa fé (Emil Brunner) traduziram a experiência de fé de suas respectivas comunidades. Porém, boa parte dos trabalhos confessionais é, em geral, produto de várias mãos como as Confissões de La Rochelle (Confissão Galicana), Westminster e – até certo ponto – da Confissão Escocesa sendo que, além disso, grande numero de textos confessionais como as duas confissões valdenses (1120 e 1544) também permaneceram anônimos. Além disso, a despeito do caráter territorial de muitas dessas confissões, isso não remete, de forma alguma, que toda a literatura confessional do período refletisse os pontos de vista institucional, bastando se ver que todos os documentos confessionais batistas (Schleitheim e as duas confissões batistas inglesas, de 1644 e 1689, bem como a confissão batista norte-americana de 1833, e ainda a confissão metodista de 1784) foram redigidas fora das estruturas institucionais, não sendo, portanto, expressões do ponto de vista das igrejas territoriais.
Edson Douglas de Oliveira
Licenciado em História




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