domingo, 8 de janeiro de 2012

DICIONÁRIO TEOLÓGICO: Igreja


 

O Pão Eucarístico. Árte paleocristã do século III. Catacumba de S.Calixto, Roma



O termo εκκλησία (ekklesia = ek – para fora – klesia – chamados; lat. ecclesia) que aparece em textos como Mateus 16.18 e 18.17; Atos 5.11; 12.5 e 13.1; Efésios 5.27, etc, vertido para o português como Igreja (Tradução Brasileira, NTLH, ARA, Jerusalém) pode ser também traduzido literalmente como assembléia ou congregação sendo que para teólogos como Claudio de Oliveira Ribeiro (programa de pós graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de S.Paulo), pode também implicar aspectos políticos do ponto de vista da relação da comunidade com a sociedade na qual ela se encontra inserida (Dicionário Brasileiro de Teologia, p. 316). Aliás, congregação ou comunidade são também termos que se aplicam recorrentemente a ekklesia e o próprio Lutero utiliza essa expressão (Gemeinde ou na forma alemã plural Gemeinden (Comunidade ou Comunidades, no caso de I Coríntios 7.17) em sua tradução do Novo Testamento, sendo esse entendimento também corroborado pela exegese, como, por exemplo, em Rudolf Bultmann – εκκλησία designa, antes de mais nada não a comunidade individual, e sim o povo de Deus, a comunhão dos eleitos dos tempos finais (BULTMANN Rudolf. Teologia do Novo Testamento, p. 140) – em suma, a ekklesia pode ser definida como assembléia ou a comunidade dos santos reunidos na terra, tendo ainda correlação com o termo συναγωγή (Sinagoga), que a Septuaginta usa para designar a Congregação dos filhos de Israel no AT (Levítico 4.13; Números 16.3; 35.24), vinculando-se, num primeiro momento, à comunidade judaica, pelo menos na fase em que a ekklesia não possuía um sistema cúltico próprio (BULTMANN Rudolf, ob cit, p. 147). Desse modo, ekklesia pode ser definida como assembléia ou congregação de pessoas agrupadas por um conjunto de princípios éticos e (no caso da comunidade cristã primitiva), expectativas escatológicas. Mas a ekklesia não é uma assembléia, uma congregação qualquer. A ekklesia é a comunhão dos santos (I Coríntios 14.33), a família de Deus (Efésios 2.19), os dispenseiros dos mistérios de Deus (Tradução Brasileira e ARA e encarregados, segundo NTLH), em suma, um lugar separado do mundo – embora inserido dentro dele – destinado ao culto a Deus, mediante a confissão do Cristo como Senhor e Salvador do mundo e constituída para zelar pela Sua Palavra e viver o Ágape nesse mundo e nesse tempo.




A celebração da festa do Ágape. Arte Paleocristã, século III. Catacumba de S. Calixto. Roma



De um modo geral, o entendimento da ekklesia como Gemeinde perpassa também pela compreensão das diversas tradições cristãs evangélicas, sendo assim confessada pelo Credo Apostólico. É a congregação santa (LUTERO Martinho, OS VII [Catecismo Maior, 1529] p. 397) afirmação corroborada pelas confissões reformadas: a Igreja é a assembléia dos fiéis convocada ou reunida do mundo: é, direi, a comunhão de todos santos, isto é, dos que verdadeiramente conhecem, adoram corretamente e servem o verdadeiro Deus em Cristo, o Salvador, pela palavra e pelo Espírito Santo, e que, finalmente, participam, pela fé, de todos os benefícios gratuitamente oferecidos mediante Cristo. Cidadãos de uma comunidade (Segunda Confissão Helvética, art. 17). Cremos e confessamos uma só igreja católica ou universal. Ela é uma santa congregação e assembléia dos verdadeiros crentes em Cristo, que esperam toda a sua salvação de Jesus Cristo, lavados pelo sangue Dele, santificados e selados pelo Espírito Santo (Confissão Belga, art. 27). Cremos que uma Igreja visível de Cristo é uma congregação de crentes batizados, associados pelo pacto na fé e comunhão do evangelho; observando as ordenanças de Cristo; governados por suas Leis, e exercitando os dons, direitos, e privilégios investidos neles pela sua Palavra (Confissão de New Hampshire, art. 13). Essa Congregação santa é unida pela pregação, mas também pela participação desses crentes no corpo glorificado de Cristo que é na verdade, conforme Dietrich Bonhöeffer, nada menos do que a própria igreja – mais especificamente o seu cabeça (Efésios 1.22) já que, por meio da igreja, o corpo de Cristo está ocupando lugar entre os seres humanos e se tornando visível por meio da pregação da Palavra (BONHÖEFFER Dietrich. Discipulado, p. 158). Esse corpo exige um espaço de pregação da Palavra no mundo onde se encontra inserido, e onde possa viver mediante a pregação e a ministração dos sacramentos (ob cit, p. 161). É uma instituição sociológica – um agrupamento de indivíduos de diferentes condições sociais e econômicas – mas também escatológica – já que se unem no corpo de Cristo transformado em comunidade (como escreve Bonhöeffer em sua dissertação Comunhão dos Santos, de 1930) e que vivem a esperança escatológica mediante a pregação e os sacramentos.

Em suma, Bonhöeffer nos lembra que a Igreja é um organismo vivo que está presente no mundo, ela é uma instituição universal, mas também é particular, como lembra a Segunda Confissão Helvética. A Igreja Militante na terra tem tido, sempre, muitas igrejas particulares. Contudo, todas estas devem ser referidas à unidade da Igreja católica. Esta Igreja (Militante) foi estabelecida de um modo antes da Lei, entre os patriarcas, de outro modo diferente sob Moisés, pela Lei; e de modo diferente por Cristo, por meio do Evangelho (art. 17). Essa argamassa que liga o evangelho ao antigo patriarcado e à lei mosaica é, sem dúvida, a Palavra, A Igreja é universal porque a sua missão de pregar o evangelho deve levá-la a todo o mundo e a insere no mundo, mas também é particular porque apresenta estruturas de governo eclesiástico distintas entre si (presbiterianas, episcopais, congregacionalistas), ou porque apresenta especificidades litúrgicas, culticas ou dogmáticas que as distinguem entre si conforme a tradição dogmática (católicos, ortodoxos, protestantes, pentecostais) ou particularidades históricas ou nacionais. Contudo, independentemente do culto apresentar tantas e tão expressivas diferenças quando comparados, por exemplo, os cultos da Igreja Copta do Egito com os da Igreja Armênia, os da Igreja Maronita do Líbano com os de uma Igreja Batista do Sul dos Estados Unidos ou os da Igreja Presbiteriana Escocesa com os da Igreja Luterana da Dinamarca, ainda assim todas essas igrejas também serão Igreja Universal porque estão unidas pelo sacramento e pela pregação. E isso precisa ser destacado porque a igreja é uma instituição que peregrina pelo mundo, que está militando no mundo (ecclesia militants, igreja militante), vivendo nele, embora o mundo não deva estar nela, e, o mais importante, sem deixar de perceber que em um momento esta igreja também deixará de estar nele quando for recolhida ao descanso eterno, quando só então, se poderá dizer que essa igreja que deu baixa do mundo (Büllinger. Segunda Confissão Helvética, 17) está de fato na glória de Deus como ecclesia triumphants (igreja triunfante).

Edson Douglas de Oliveira

Licenciado em História

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