A cruz é um elemento poderoso no fortalecimento da fé de diversas tradições cristã (As Três Cruzes, 1653. Gravura em metal de Rembrandt. Escola Holandesa do século XVII. Rijksmuseum, Amesterdan)
O prefácio de Lutero à epístola de Romanos – que mais do que qualquer outro escrito neotestamentário tem ao longo da história e da teologia influenciado gerações de teólogos, de Agostinho a Karl Barth – traz uma síntese de sua definição de fé que representa o paradigma por excelência em relação ao mundo medieval.
A obra da lei é tudo que a pessoa faz com a Lei e pode fazer com ela partindo de sua vontade livre e de suas próprias forças. Como, porém, sob e ao lado de semelhantes obras, permanecem no coração indisposição e coação em relação à lei, todas as obras são perdidas e inúteis. Isto é o que São Paulo quer dizer no cap. 3 [20] ao dizer: “ninguém será justificado diante de Deus por obras da lei”. Daí podes ver agora que os disputadores acadêmicos e sofistas não passem de sedutores ao ensinarem o preparo da graça através das obras. (...) como agradar a Deus a obra que provém de um coração indisposto e desobediente?
Entretanto, cumprir a lei significa realizar sua obra com vontade e amor e viver uma vida reta e livremente, conforme a vontade de Deus, sem coação da lei, como se não houvesse lei, nem punição. Semelhante disposição, partindo do livre amor é o Espírito Santo quem dá ao coração como diz no cap. 5 [5]: “o Espírito Santo não é dado senão em, com e através da fé em Jesus Cristo”. (...) assim, a fé não vem senão exclusivamente pela Palavra de Deus ou Evangelho que prega a Cristo como Filho de Deus e pessoa humana, morto e ressurreto em nosso favor, de acordo com o que ele diz-nos cap. 3 [25], 4 [25] e 10 [6ss].
(...) Fé não é ilusão e o sonho humano que muitos acham que é. (...) Fé é uma obra divina em nós, que nos modifica e nos faz renascer em Deus, Jo 1 [13], mata o velho Adão e transforma-nos em pessoas bem diferentes de coração, sentimento, mentalidade e todas as forças, e traz consigo o Espírito Santo. Ah, há algo muito vivo, atuante, efetivo e poderoso na fé, a ponto de não ser possível que ela cesse de praticar o bem. Ela também não pergunta se há boas obras a fazer e sim, antes, que surja a pergunta, ela já as realizou e sempre está a realizar. (...) Fé é uma confiança viva, inabalável na graça de Deus, tão certa de si que ela não se importaria de morrer mil vezes. E semelhante confiança e reconhecimento da graça divina tornam alegre, persistente e agradável perante Deus e todas as criaturas, o que é ocasionado pelo Espírito da fé. Por isso, sem coação, ela se dispõe voluntariamente a fazer o bem a todo mundo, a servir a todo mundo, sofrer tudo por amor, e em louvor a Deus que lhe demonstrou tamanha graça, de sorte que é impossível separar as obras da fé, como é impossível separar a luz do fogo. (LUTERO Martinho. Obras Selecionadas, VIII [Prefácio à Epístola de São Paulo aos Romanos, 1522 (revisada em 1546)], p. 131 – 133)
Conforme a definição neotestamentária clássica fé é a substância das coisas esperadas, a prova das coisas não vistas (Hebreus 11.1. Tradução Brasileira), ou seja, é a consumação daquilo que ainda não é, mas que tornar-se-á desde que aquele que crê tenha ciência e assuma com convicção e segurança essa verdade em seu âmago. Não é algo que se possa apreender com a razão, ou melhor, é tudo aquilo que escapa a compreensão formal da razão humana. E na verdade, como especifica Rudolf Otto, citando Claus Harms, aonde está a religião (e a fé, junto com ela) ali está o território incógnito para a razão (OTTO Rudolf. O Sagrado, p. 99). Em suma, a fé não pode ficar na dependência da razão porque ambas são antíteses. Uma é a certeza, outra a esperança; uma é a sabedoria segura, outra a convicção intangível das coisas do alto, como escreve Karl Barth no seu comentário à Romanos. Onde acabam todas as convicções e seguranças, onde jaz todo o orgulho e todo o sentimento de autosuficiência e presunção, ali a fé reina indene.
Conforme a tradição Protestante, a fé implíca na aceitação de que pela obra de Cristo, os pecados humanos serão perdoados. (Cristo e a adúltera. Desenho a lápis de Rembrandt, s/d)
O conceito de fé tem variações no AT e no NT. No período veterotestamentário a fé se dá a partir de uma relação indissolúvel entre sujeito e objeto. A ênfase inicial está no caráter de confiabilidade do objeto de fé, no caso, Deus. Deus é estável e confiável, por isso o ser humano pode depositar Nele suas expectativas e esperanças, como são testemunhas aquilo que o professor da EST (Escola Superior de Teologia, da Igreja Evangélica da Confissão Luterana do Brasil), Ênio Mueller, chama de narrativas confessionais como Deuteronômio 6.20 – 25 e 26.1 – 11 e o Salmo 89. (Dicionário Brasileiro de Teologia, p. 442). No NT a fé se transforma num ato de cognição (ou de hipostatização, outro tremo usado por Mueller). A fé tornou-se ato cognitivo porque se fundamenta na aceitação do Evangelho que proclama a vinda e a realização do Reino de Deus na história e na vida pessoal do cristão. Fé é crer no Filho de Deus (João 3.16) e esperar o seu Reino. Fé, no NT se fundamenta na esperança, expressos pela morte e ressurreição de Jesus (idem, p. 443). Portanto, no NT nas promessas vindouras asseguradas exclusivamente pela proclamação do Evangelho por Jesus e na confiança de que o ato de sua ressurreição e ascensão possibilite a concretização de todas essas certezas que, nesse momento, só existem como confiança (como fé em suma). Além disso, é preciso ter fé para se receber a maior dádiva prometida no NT que é a salvação e a vida eterna (Marcos 16.16, João 3.16, Romanos 10.14). O princípio reformador do sola fide (pela fé somente) dá a plena dimensão da importância da fé na vida cristã em geral no protestantismo em particular, pois somente pela fé é assegurada a identidade cristã em toda a sua plenitude. É um ato de confiança no incognoscível que nos leva, conforme define Paul Tillich, a ter essa segurança e certeza apesar de todas as adversidades e implicações negativas, o pecado, a alienação, o desespero, e tudo isso porque, conforme a Teologia dos Reformadores, Deus quer que nos reconciliemos com Ele, e pela fé, evidentemente (TILLICH Paul. Teologia Sistemática, p. 343). Nisso também se infere que a fé não colide com a razão, porque ela tem também uma racionalidade implícita, pois, como a razão, ela se move por certezas, e, além disso, conforme lembra Paul Tillich, somente quem é dotado de razão, pode exercer e ter consciência de fé, de modo que fé e razão não são colidentes (Dicionário Brasileiro de Teologia, p. 443).




1 comentários:
A Santa Jerusalém – Artigos Religiosos
Tem o orgulho de apresentar o segundo capítulo do nosso documentário, aproveitem! www.santajerusalem.com
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